A dificuldade do presidente Fernando Henrique em influir na luta pelas presidências da Câmara e do Senado prende-se a algo simples: todos os postulantes são aliados. Qualquer opção de mau jeito pode entornar o caldo e empurrar para a dissidência votos decisivos para a causa da reeleição. A rigor, tudo gira em torno disso.
O empenho do presidente em influir no processo está ligado à necessidade de manter o controle do processo parlamentar. A história da independência dos Poderes jamais chegou a ser, entre nós, digamos assim, uma realidade radical e inapelável - muito pelo contrário.
Os atuais presidentes - José Sarney (PMDB-AP) do Senado e Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA) da Câmara - são aliados governistas, mas em graus e estilos diferenciados. Luís Eduardo tem sido o braço forte do presidente dentro da Câmara. Programa e coordena as votações tendo em vista sempre o interesse do Palácio. É cogitado para um cargo no primeiro escalão quando da reforma ministerial e já exerce a missão de articulador da reeleição. Prova maior de confiança não há.
Já José Sarney adota outro tipo de comportamento. É aliado, mas não professa o alinhamento incondicional. Adota o clássico estilo de criar dificuldades para negociar facilidades. Coube-lhe interromper o processo de reformas constitucionais ao final do primeiro semestre do governo Fernando Henrique, opondo-se à convocação extraordinária do Congresso. Se não o fizesse, as reformas fundamentais até agora pendentes - a previdenciária, a adiministrativa e a tributária - possivelmente já estivessem aprovadas e com muito menos concessões que as posteriormente feitas pelo governo.
O perfil que Fernando Henrique deseja ver nas presidências da Câmara e Senado é exatamente o de Luís Eduardo Magalhães: o do político profissional, que não permite que emoção e idiossincrasias interfiram. Os interesses acima de tudo é o lema.
Essa escola filosófica seguida pelo PFL está no poder desde Thomé de Souza. O senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) tornou-se quanto a isso uma espécie de paradigma: não permitiu, por exemplo, que atritos e decepções gerados no episódio da quebra do Banco Econômico, que tentou evitar, o afastassem do convívio presidencial e palaciano.
Engoliu todos os sapos que lhe foram servidos, adiministrou sua adrenalina e continua com livre acesso à mesa do poder. É, aliás, o candidato de Fernando Henrique à presidência do Senado. Sarney, que se tornou um adversário inesperado, apoiando a candidatura Íris Resende (PMDB-GO) - um aliado de Fernando Henrique, diga-se -, não é, na essência, muito diferente, mas lida com outras circunstâncias e objetivos: sua retaguarda partidária não é tão profissional e ele próprio ainda não se convenceu da causa da reeleição.
O nó é esse, a ser desfeito na velha base: cargos, cargos e cargos.

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