Carnaval político
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de fevereiro de 1998
Fernando José Dias da Silva 
Os tucanos mais emplumados sentem um frio danado na espinha só de pensar que o PMDB pode decidir ter candidato próprio à Presidência da República. E esse frio na espinha fica mais forte ainda quando eles imaginam que o candidato do PMDB possa ser Itamar Franco, que tem todas as condições de empunhar, com características de porta-bandeira, a imagem do criador do Plano Real, do pai da estabilidade econômica que, parece, a única coisa que vai dar votos realmente na próxima eleição.
O pior ainda é que, apesar de todo o folclore que gira em torno de Itamar, os tucanos sabem que ele de bobo não tem nada e se quiser dará muito trabalho para Fernando Henrique conquistar a sua reeleição.
Nessa turma de tucanos ninguém esquece da lição que Itamar deu em Antônio Carlos Magalhães, que já era há muito tempo o imperador da Bahia, bravateiro de primeira ordem e que antes disso já havia colocado Paulo Maluf em situação ridícula desfilando em São Paulo pelo centro da cidade e convocando Maluf para fazer o mesmo. Desafio que o tarimbado político paulista não aceitou. Pois bem, Antônio Carlos passou um tempo dizendo que iria apresentar denúncias gravíssimas contra o governo Itamar. Ganhou espaço na mídia, fez um carnaval. Até que um dia, o então presidente revolve receber ACM em audiência para que ele fizesse as suas denúncias.
Foi uma agitação incrível. Os jornais não falavam de outra coisa. No dia e na hora marcada Antônio Carlos chegou que era só pose ao Palácio do Planalto e foi recebido em audiência. Só que Itamar havia reservado uma surpresinha para seu convidado. Em seu gabinete estava toda a imprensa para testemunhar a entrega de documentos e o relato dos fatos gravíssimos que estavam ocorrendo. É claro que não havia denúncia nenhuma. ACM queria ser recebido particularmente por Itamar para depois sair falando cobras e lagartos. Só que o presidente foi mais esperto e castigou ACM com um dos maiores vexames que ele deve ter passado em toda a sua vida política.
O medo dos tucanos é que Itamar Franco é assim, imprevisível. E pode provocar o segundo turno na eleição. Coisa que a turma de Fernando Henrique não quer que aconteça porque será mais um motivo de conturbação nos planos do atual governo, que é descontar essa fatura no primeiro turno.
O grande assunto desse carnaval na área política é a reunião do PMDB marcada para o dia 8 de março para decidir se o partido terá candidato próprio à Presidência ou se cai de vez nos braços de Fernando Henrique. São milhares de contas que estão sendo feitas e todo mundo está blefando. Os que querem dar apoio incondicional a candidatura Fernando Henrique dizem que têm maioria e vão bater os que lutam pela candidatura própria. Os defensores de um candidato do PMDB dizem que são eles que vão ganhar e essa guerrinha de nervos vai prosseguir por enquanto.
O interessante é que, apesar do Carnaval, ninguém está levando na brincadeira essa história. O presidente Fernando Henrique que anda telefonando para peemedebistas para tentar demovê-los dessa história de candidatura própria, muitas vezes sem êxito. Itamar Franco que também liga dos Estados Unidos para explicar que sua candidatura é a sério e que chega ao Brasil muito antes do dia 8 para trabalhar pela sua posição. E o PMDB, pelo menos um setor mais ligado às bases, que vê na candidatura própria uma chance do partido não se desmantelar de vez.


