Carnaval identidade (Luiz Geraldo Mazza)
Culturalmente o carnaval age como uma esponja e absorve, conforme o local, as tonalidades específicas dessa sociedade. Como somos condenados à ausência de identidade, já que oscilamos entre influências mais fortes e determinadas como a gaúcha e a paulista, não conseguimos levar ao carnaval nem alguns desses fatores que nos tornam um Brasil diferente, conforme discutível, mas bem formulada, tese do crítico Wilson Martins.
Testemunhei carnavais em minha terra, Paranaguá, com face autóctone nos blocos e ranchos Boi do Norte, Boi do Sul, Estrela do Oriente. Ranchos que deram origem às modernas e hoje industrializadas e deturpadas escolas de samba, todos com suas canções e coreografias próprias baseadas nos autos populares da região como o fandango, o boi-de-mamão, as balainhas.
Da mesma forma que o gauchismo se apropriou de todas as pré-condições da cultura campeira para fixar-se no Paraná, não apenas nos Campos Gerais, mas ainda em áreas densamente ocupadas por riograndenses no Oeste e Sudoeste, é de lembrar-se que em muitos aspectos essa retomada de hábitos já tinha origem nos paulistas da Quinta Comarca, a rigor os curitibanos, que colonizaram áreas importantes daquele Estado em decorrência da tradição das tropas que faziam o percurso entre Sorocaba e Viamão.
Costuma-se olhar o fenômeno folclórico numa sociedade mutante como de difícil recuperação, mas é visível que as cantigas de roda não podem depender da Xuxa e da Angélica para voltarem a ser interpretadas. Basta que nas pré-escolas (o que já acontece com regularidade) se processe essa retomada nos jogos e nas práticas didáticas. Dá para lembrar aqui que a marchinha carnavalesca que trata da tuba do Serafim se presta a esse culto: Todo domingo havia festa// no coreto do jardim// e lá de longe// a gente ouvia// a tuba do Serafim// Porém um dia// entrou um gato// na tuba do Serafim// e o resultado// dessa melodia// foi que a tuba tocou assim:// tam-tam-tam-miau-tantarantantan//
O governo ganharia muito mais em profundidade e não em espetáculo, já que esse é mais fácil montando um time de voleibol da Rexona ou fazendo eventos como esses Jogos da Natureza, se buscasse a retomada das raízes, aliás que faz parte da justificativa, nem sempre verdadeira, do discurso urbanístico de Lerner com essa obstinação em hibernar pardieiros em nome da memória. Podemos fazer isso sem desprezar os dados novos, ou pelo menos mais recentes, da chegada dos imigrantes e também dos migrantes e dos efeitos em miscigenação e aculturação. O fato é que a reflexão sobre cultura precisa sair da facilidades do espetacular e do cupinchismo, que dão a tônica do setor, para uma ação mais permanente e com visão de longo prazo. Maior parte do que se faz se dissipa no triunfalismo ôco do oba oba. Basta ver que raros são nossos artistas que têm expressão nacional em qualquer dos campos e em passado recente já detivemos posição mais confortável quando nossos teatro e balé percorriam o país.
A passagem do carnaval mostra a obviedade dessa crise de identidade.
BIZARRICE Uma cena chocante sábado passado na Boca Maldita: o cartorário Júlio Jacob, ex-prefeito de Jaguapitã, acuou o senador Roberto Requião numa banca de jornais, agredindo-o verbalmente, acusando-o de haver se valido de relações de amizade para usar do cartório da filha para a lavratura da certidão que atinge o ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca. Enquanto uns pediam moderação, outros estimulavam com palmas o serventuário da Justiça a intensificar seus ataques. Aí veio um samaritano e fez a cena bem no estilo da Boca Maldita: como quem coroa um rei transitório como o Momo do Carnaval, puseram-lhe na cabeça, como se fosse um adorno de relevância, um cone de sinalização do trânsito.
SINDICALISMOSindicatos vivem pleiteando autonomia em relação ao Estado, razão pela qual essa decisão de Lerner de cortar as consignações em folha da APP e dos demais órgãos classistas veio na hora para estimulá-los. Fazer o papel de bebê chorão, tentando ganhar na base da piedade, apropriada à nossa tradição de patriarcalismo (e o getulismo tem influência fortíssima nisso), não adianta, e o remédio é mostrar capacidade de arregimentação e organização para cobrar essas mensalidades.
Há, no entanto, um problema: o associado pode perceber que o dízimo pesa no orçamento e decidir cortá-lo, o que aliás é previvísivel e mais devastador relativamente aos empregados particulares, o que mataria os sindicatos, por achar que se trata de um gasto inócuo. Aí é que o sindicato pode mostrar sua combatividade que não deve limitar-se aos tais indicativos de greve e pressões supostamente intimidativas e que já não funcionam.
Os professores, especialmente, podem dar uma lição no governo, organizando-se e contratando bases administrativas para cobrar as mensalidades com recursos da informática. Quem gosta de moleza é bebum na ladeira. Arrotar aguerrimento na base do palavrório e das passeatas é insuficiente. À luta, pois, até porque ao governo não interessa acreditar no voto de funcionários normalmente eleitores da oposição por tradição, mesmo quando dá a um classe mais de 130% de aumento quando os demais ficaram chupando o dedo.
FOLCLOREO Coritiba mandou embora o Minelli e contratou o Júlio César Leal. Só que o Júlio Cesar que ele necessita é aquele romano mesmo até para ser, mais tarde, apunhalado pela própria torcida e diretoria.
CROMO Mendigos de Curitiba correm o risco de ganhar o prêmio da fantasia original. Original porque existem e são completamente ignorados como ETs.





