Não há motivo para preocupação: Lady Di vai sobreviver. Vai sobreviver nos pôsteres, nas camisetas, na imitação dos penteados, nos filmes, em tudo que possa ajudar a prolongar mais um pouquinho esse show da sociedade do espetáculo. Diana Spencer é personagem fundamental, ao lado de Elvis Presley, de Mao Tse Tung, de Che Guevara, de John Kennedy e muitos outros que ajudam a população a se resignar a viver as suas vidas totalmente sem graça.
A importância da princesa de Gales nessa grande performance em que se transformou a vida da sociedade é básica, é fundamental porque na verdade ela não é nada. Não é uma grande cantora, não é uma grande estudiosa, não é uma grande política. É uma pessoa normal, medíocre como todos os que assistem ao espetáculo. E, por isso mesmo, tem muito maior identificação com esse tipo de pessoas.
Lady Di nunca teve um projeto maior. Fez campanhas de benemerência, é verdade, mas isso toda gorda rica faz. Nunca se diferenciou das outras pessoas a não ser pelo fato de ter virado nobre. Talvez o grande sonho de todos os que têm que acordar cedo e trabalhar todos os dias.
Na sociedade do espetáculo, ajoelhou tem que rezar. E a coitada da Diana pagou um preço muito caro por se transformar naquilo que milhões de pessoas queriam ser. Até a sua frivolidade, a busca compulsiva por roupas novas e por publicidade demonstravam uma angústia de menina mimada que não sabe controlar seu próprio brinquedo. Ela entrou no jogo, depois ficou apavorada com a extensão desse jogo, das apostas que eram necessárias para continuar sobrevivendo.
E para esse jogo é melhor que a sua imagem fique congelada. Aí os grandes prestidigitadores podem entrar em ação. Oferecer um milhão de dólares pelo carro destruído, passar meses discutindo quem será a atriz mais indicada para fazer o seu papel num filme que já é sucesso mundial e multiplicar por cem, por mil o preço de um vestido, de uma bolsa e de um caderno de apontamentos de Diana.
Por ser uma pessoa comum, por não ser uma madame Curie, não ser uma Simone de Beauvoir, uma Tina Turner ou uma Madonna, Diana Spencer se presta muito melhor ao papel de ícone. O seu perfil pode ser construído e reconstruído quantas vezes se quiser, bem ao gosto da sociedade do espetáculo. Imagina-se que diálogos fantásticos a turma do ‘‘new journalism’’ vai atribuir a Lady Di.
Mas o show tem que continuar e a imprensa tem que ser culpada de todas as mazelas do mundo. A imprensa, até descobrirem outro pobre coitado, é a assassina. O mais interessante são os acusadores usarem a própria imprensa para fazer as denúncias. A mostra mais grotesca dessa situação é uma foto de jornal onde aparece um basbaque queimando jornais em protesto, mas sendo filmado e fotografado para que o fato ficasse gravado.
O que torna a coisa mais dramática é que Diana não está tendo participação nesse carnaval de horrores. Talvez ela tenha pensado em outra forma de entrar na vida e também na história, junto com os filhos e até com o marido - outro clow nesse espetáculo. De uma forma ou de outra, os cinco minutos de notoriedade de Lady Di estão assegurados.

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