É Carnaval! Cinco dias de paralisação da economia e da política nacionais e de muita movimentação nos corpos de milhares de brasileiros, que esquecem das dívidas, do desemprego e das mazelas sociais do nosso País para mergulhar no ritmo do samba.
Para o pequeno e médio empresário brasileiro, este Carnaval tem um ritmo diferente. Ao contrário do som alegre dos salões e das avenidas, o empresariado ouve o ritmo grave e compassado das expectativas de quem já espera com ansiedade os resultados da próxima reunião do Comitê da Política Monetária, no dia 4 de março.
O Copom é o órgão responsável pela fixação dos juros básicos no Brasil. Em janeiro, o Comitê reduziu de 40,92% para 38,0% ao ano a Taxa do Banco Central. No mês passado, a redução da TBC foi ainda maior que a expectativa do mercado, caindo de 38% para 34,5% ao ano.
Para os menos avisados, a última queda de 3,5 pontos pode soar como uma conquista. Mas essa não é a realidade. O nível de juros no Brasil ainda permanece muito alto, principalmente quando comparado com as taxas praticadas em outros países com economia emergente como a nossa. Na Argentina, por exemplo, a mesma taxa é de 6% ao ano, chegando a 7,7% no Chile e 19% no México.
E estamos falando dos juros básicos, que são três vezes menores que as taxas cobradas pelo sistema bancário para financiamentos e linhas de crédito. Um pequeno empresário que necessite de crédito para capital de giro não encontra no mercado, por mais exaustiva que for sua procura, recursos com taxas de 34,5% ao ano. Para quem cai nas mãos dos agiotas, essa realidade é ainda mais cruel. O mercado paralelo chega a cobrar 40% ao mês de juros.
Mas é na TBC que está o ponto de partida desse cenário de juros altos no Brasil. O governo federal elevou as taxas básicas para evitar que a economia nacional fosse afetada pela crise asiática. Agiu com rapidez e sabedoria.
Entretanto, a recuperação da economia asiática já pode ser verificada na performance das bolsas de valores do Japão, Tailândia, Coréia e Filipinas. No início deste ano, os resultados dessas quatro bolsas a apareceram entre os oito melhores do mundo.
Sendo assim, parece ser falsa a justificativa de que a manutenção dos juros altos no Brasil seja uma medida preventiva, contra o mal que vem da Ásia. A redução na TBC em fevereiro é tímida diante das necessidades do mercado interno. A pequena e microempresa brasileira estão sufocadas e precisam de mecanismos para se financiar. Mas quem recorre ao mercado financeiro, hoje, pode estar decretando sua autofalência.
Na reunião do dia 4 de março, o Comitê de Política Monetária tem condições para reduzir ainda mais a TBC. Com isso, os juros cobrados pelos bancos nas operações de crédito, incluindo nessa lista o cheque especial - instrumento utilizado pela maioria da população correntista do Brasil - , podem também cair a índices mais acessíveis
É nessa expectativa que nós, empresários brasileiros, estamos ‘‘pulando’’ o Carnaval. A classe empresarial paranaense, através da Associação Comercial do Paraná, vem se movimentando no sentido de pressionar o governo federal por uma redução mais rápida nos juros praticados pelo mercado.
Na semana passada, esse movimento ganhou importante apoio do governador Jaime Lerner, que se comprometeu pessoalmente a envolver sua equipe técnica na busca de soluções práticas para garantir a sobrevivência da pequena e microempresa paranaense.
Estamos reunindo forças para fazer frente ao insuportável nível das taxas de juros. Esperamos que as autoridades monetárias tenham a sensibilidade de acelerar o processo de redução dessas taxas. Caso isso não aconteça, as previsões para os próximos meses são desastrosas. Ao manter o ritmo de queda paulatina ditado pelo Comitê de Política Monetária, só chegaremos a índices mais suportáveis, de 20,7% ao ano para a TBC, num prazo de dez meses. Até lá, o Brasil terá de suportar os efeitos destrutivos dessa política no nível da atividade econômica, na geração e manutenção de empregos e nas contas públicas. Neste caso, perguntamos às autoridades monetárias: o Brasil está preparado para suportar tais efeitos?
- ARDISSON AKEL é empresário, presidente da Associação Comercial do Paraná.

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