Carnaval, a mistura da folia com a crítica política e social
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sexta-feira, 08 de março de 2019
Lais Taine<br>Reportagem Local 

Nas marchinhas ou nas fantasias, neste Carnaval o brasileiro fez da folia uma forma de protesto. As manifestações espontâneas nos blocos de rua tiveram seu destaque, fazendo da comemoração um momento de expressão política. Este não é um caso isolado, shows internacionais e eventos esportivos também ganharam repercussão após plateia verbalizar insatisfações por meio de gritos e vaias. Para compreender este fenômeno, a FOLHA entrevista Clodomiro José Bannwart Júnior, professor de Ética e Filosofia na UEL (Universidade Estadual de Londrina).
"Hoje temos um espaço mais aberto e democrático que comporta a espontaneidade de manifestações públicas. É a democracia funcionando além dos parâmetros institucionais", explica o professor. A liberdade de expressão estendida a vários segmentos sociais demonstra diversidade de valores garantida pela democracia, peça fundamental para assegurar que a heterogeneidade de ideias possa conviver no mesmo espaço.
Há quem julgue inadequada a crítica nos espaços designados para diversão e há quem fez da multidão o seu espaço para rebelar-se. Nesta profusão de ideias, a manifestação política apartidária e sem lideranças vem ganhando força. Os resultados desembocam na opinião pública em que sai na frente os grupos políticos que souberem ouvir a mensagem popular.
Existe tempo e espaço para manifestação política? O brasileiro pode se manifestar no Carnaval?
É no espaço social que se capturam os temas relacionados ao cotidiano, os quais envolvem os dilemas, os dramas, as percepções de injustiça e as aspirações da coletividade. Estes temas são discutidos e refletidos no espaço público e, igualmente, encenados no território próprio da arte. E o carnaval, que é sempre um momento festivo e de alegria, também contempla, e muitas vezes de forma sátira, esses diversos aspectos da sociedade. É salutar poder capturar fragmentos da realidade, próprio do tempo presente, na forma do humor e do riso público.
Este movimento demonstra que o brasileiro está mais consciente dos espaços políticos?
O Carnaval sempre foi um espaço de manifestação política. Não me refiro à política partidária, mas à capacidade de o Carnaval refletir temas da nossa história, do nosso folclore, dos nossos costumes, o nosso modo de ser, a maneira como funcionam as instituições políticas, a postura de figuras políticas e, inclusive, os temas que estão colocados na pauta política no momento. O carnaval é a incursão popular no espaço público e que se traduz, por meio do riso público, numa reflexão bem humorada dos nossos dilemas e anseios.
O que incita as pessoas a se manifestarem politicamente em espaços em que se espera diversão?
O espaço da diversão, do lúdico, dilui a individualidade na coletividade. Retira as máscaras que preservam a personalidade, permitindo que personagens surjam e deem vida a uma multiplicidade de vozes. O superego, nesse caso, permanece em hibernação e as manifestações, inclusive políticas, ficam menos inibidas e mais espontâneas. Temas que seriam tratados com mais sobriedade em outros espaços, ganham contornos de comédia e de sátira. É o espaço do humor. E o humor não tem como fim ridicularizar, mas, sim, chamar a atenção da nossa própria condição.
O que faz com que essas manifestações espontâneas surjam?
As manifestações sociais estão diluídas no espaço público e não há um controle que as impeçam de ocorrer, até porque a sociedade não é hierárquica, homogênea e fechada. A sociedade, ao contrário, é aberta, complexa, plural e fragmentada por uma diversidade de valores e de visões de mundo. Vivemos num contexto pós-convencional em que a democracia se impõe como marco fundamental para assegurar a coexistência da heterogeneidade no mesmo ambiente. Não há mais lideranças pré-definidas como no passado. As lideranças de hoje também estão dissolvidas em uma multiplicidade de vozes. Vivemos uma era de copartição e de corresponsabilidade. E as redes sociais, impulsionadas por novas tecnologias, facilitam ainda mais a espontaneidade de novas manifestações e reivindicações, sem que haja a necessidade de comandos previamente organizados.
Esse movimento de crítica em massa consegue ter uma resposta na prática?
Sim, as manifestações de massa deságuam naquilo que chamamos de opinião pública, que é um termômetro para mensurar o comportamento social em relação a determinado assunto ou a certas pautas políticas. É um parâmetro de tendências sociais. Se levarmos em consideração as manifestações populares no Brasil de 2013 para cá, perceberemos que elas, a cada momento, apresentaram posicionamentos de convergências e divergências que guiaram a uma certa direção. Os grupos políticos que captam esse espírito do tempo (Zeitgeist) saem na frente.
Com a polarização atual, a crítica perde força? De que forma as manifestações afetam os nomes envolvidos?
É certo que vivemos uma tensão ampliada em razão do quadro de polarização que o País atravessa no momento. E isso pode tornar a crítica refém de um dos lados. Ambos os lados podem tentar desqualificar a crítica, como temos visto. A crítica, no entanto, deve ser corretiva, pedagógica. Ela deve apontar a realidade tal como ela é à luz de como ela deveria ser. A crítica, nesse aspecto, comporta um componente normativo que é o de preencher aquilo que ainda não temos, mas que gostaríamos de alcançar. As manifestações artísticas e estéticas têm esse poder de crítica, que é o de nos tirar da zona de conforto e, ao mesmo tempo, despertar em nós um senso de reflexão e de questionamento.
Está cada vez mais comum ver estes protestos em shows, apresentações, eventos esportivos. O que isso representa?
Representa que hoje temos uma espaço mais aberto e democrático que comporta a espontaneidade de manifestações públicas. É a democracia funcionando além dos parâmetros institucionais. A liberdade de expressão é alargada e incorpora segmentos sociais que, no passado, sequer podiam se manifestar no espaço público. A democracia amplifica a multiplicidade de vozes na sociedade. Não à toa há grupos, hoje, que se fecham em seus valores, muitas vezes de forma dogmática, e recusam a manifestação de grupos sobretudo minoritários. Tais comportamentos, além de negarem a alteridade, revelam-se antidemocráticos.
A crítica de massa em forma de piada/sátira é uma exclusividade do brasileiro?
Não é uma exclusividade nossa. A sátira vem desde a Antiguidade. O gregos usavam o humor na forma de sátiras e de comédias para ironizar situações que permeavam o comportamento social e, igualmente, de pessoas que detinham influência na vida política. O brasileiro, de modo geral, é muito receptivo ao humor. E o humor é a combinação entre a liberdade e o riso, o absurdo e o óbvio, sem, no entanto, ferir ou discriminar.
Considerando o efeito manada, toda e qualquer manifestação nesses ambientes deve ser levada em conta?
O efeito manada pode ser irracional e inconsequente. A manifestação popular que agrega e massifica pode, num primeiro momento, ser portadora de importante crítica a temas sensíveis na sociedade. Mas pode, num segundo momento, ela própria ser objeto de crítica. Quanto a massa não vale o ditado popular que "a voz do povo é a voz de Deus". A maioria pode se equivocar, deturpar e negligenciar direitos, sobretudo de minorias. A métrica para balizar a relação entre maioria e minorias está em correlacionar de forma equilibrada a manifestação da soberania popular com o respeito aos direitos fundamentais. Esse é o grande desafio das democracias contemporâneas.
Quais os efeitos desses movimentos após os eventos?
Ajudam o moldurar o quadro da opinião pública e, por esse motivo, não ficam fora do radar da política. É um termômetro a medir o grau da temperatura social. Registram-se as insatisfações e os anseios de grupos e de pessoas na sociedade.


