Carlos Alberto Júlio

O novo mandatário
‘‘A longo prazo, quem não usa o poder de uma maneira que a sociedade considere responsável tenderá a perder este poder’’. A História tem demonstrado o quanto é correta esta afirmação de Keith Davis, filósofo e Phd em sociologia pela Universidade da Califórnia. Na transição do feudalismo para o capitalismo, passando pelo período mercantilista, o centro do poder deslocou-se para o Estado. Inicialmente, foi o Estado absolutista preconizado por Maquiavel, no Renascimento. Depois, o Estado do despotismo esclarecido de Voltaire e o Estado democrático de Rousseau, que, ao lado de outras teses do iluminismo, prepararam o caminho para a Revolução Francesa.
À medida que a industrialização e o capitalismo foram avançando, o capital privado passou, paulatinamente, a dividir o poder com o Estado. Esta situação teve um hiato histórico no Leste europeu, a partir da revolução bolchevista de 1917, quando o socialismo inspirado por Karl Marx tornou o Estado detentor absoluto dos sistemas político e econômico. As ondas de nacionalismo suscitadas pelos dois conflitos mundiais do século também reforçaram o poder estatal. A queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro 1989, simbolizando a implosão do comunismo e o fim da guerra fria, fez o centro do poder deslocar-se rapidamente para o capital privado. Os subsídios financeiros, que materializavam a cooptação política de povos e nações à Otan ou ao Pacto de Varsóvia, deram lugar às leis de mercado. Os déficits ou superávits das balanças comerciais e pagamentos passaram a ser resultantes muito mais da competência do parque produtivo de cada nação do que da diplomacia e da política.
Estava lançada a semente da globalização, que hoje, irreversível e crescente, reforça o poder do capital privado e estabelece regras muitos claras para a economia mundial. Multiplicam-se as possibilidades. As empresas transformam-se frente à perspectiva de atacar mercados nos cinco continentes e de defender seus próprios territórios, não mais com as armas anacrônicas do protecionismo, mas sim com a logística da competência. A globalização, contudo, começa a mostrar sua outra face: o movimento de capitais por via eletrônica limita as ações dos bancos centrais e diminui o impacto das medidas de controle monetarista que até há pouco tempo eram os principais instrumentos de gestão do mercado, dos quais os governos lançavam mão em casos de crise ou excesso de demanda.
O presente crash asiático, com reflexos em todo o mundo, inclusive no Brasil, prova que os países importadores de capitais têm de manter suas economias ajustadas, alterando as prioridades de cunho político, no jogo do ‘‘fazer agora’’ ou ‘‘deixar para depois’’. Exemplo: o que o Brasil não quis ou não pôde fazer - leia-se reforma constitucional -, por falta de pressa, consciência ou leque de interesses de alguns partidos políticos, teve de ser agora acelerado pelo pacote tributário-fiscal, devido à inegável força do capital estrangeiro.
O capital estrangeiro não é maléfico e nem o senhor malfeitor que pode parecer. Ao contrário, é uma nau em busca de portos seguros, nos quais a troca de seu produto - o investimento - deve ser recompensada com o lucro e a segurança do principal, sem a volatilidade de variações cambiais imprevistas. O Governo do Brasil não tinha outra alternativa, a não ser mostrar aos administradores do capital estrangeiro que, aqui, as dificuldades são enfrentadas de frente e que a moeda está preservada, mesmo à custa de medidas impopulares e geradoras - por impacto econômico ou psicológico - de pressões recessivas.
Conforme tem sido possível notar na mídia, as empresas consideraram o pacote um mal necessário. É lamentável, contudo, que ele tinha vindo justamente na melhor época do ano para os negócios, quando todos esperavam recuperar as vendas, não tão aquecidas como em exercícios anteriores. Para muitos, as vendas de final de ano seriam um alívio, inclusive no sentido de atenuar os efeitos maléficos dos índices de inadimplência. Por isso, é fundamental redobrar os esforços para que não se comprometam os resultados do Ano Novo. Esse empenho pressupõe manter os preços e prazos de pagamento, apesar de importação, combustíveis, juros e Imposto de Renda.
O mercado, independentemente do movimento internacional dos capitais e das medidas de proteção da moeda, como as adotadas pelo Brasil, não suporta mais aumentos de preços. Ou seja, para manter a lucratividade no day after do pacote, é preciso ser ainda mais competitivo. Cortar mais custos é imprescindível, embora as empresas brasileiras já tenham chegado praticamente ao limite do possível nesse sentido. Esta imposição pode agravar ainda mais o desemprego.
O País acaba de vivenciar amarga lição. O ajuste tributário-fiscal, que poderia ter sido feito ao longo de três anos, oferecendo a necessária segurança à moeda, mas dando aos setores produtivos o direito ao planejamento, acabou ensejando medidas abruptas, com reflexos graves neste final de 1997. A realidade intangível da globalização demonstrou que o atraso das reformas constitucionais foi um flagrante equívoco dos que detêm o poder político, diante da força que as transformações históricas conferiram a quem pode entrar e sair sem pedir licença: o capital estrangeiro. O que foi recente pacote tributário-fiscal brasileiro, senão uma reverência compulsória a esse novo mandatário?
- CARLOS ALBERTO JÚLIO é presidente da Polaroid do Brasil.

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