Basta sair às ruas para se deparar com pedidos de esmola. A alegação é que o dinheiro será usado para comprar comida ou remédio, sustentar os filhos. Muitos sentem piedade e optam por ajudar, com a justificativa de que estão fazendo a sua parte. Outros nunca cedem aos pedidos por acreditar que dar dinheiro é uma forma de sustentar o vício de dependentes e manter a mendicância. O assunto é polêmico e divide opiniões.

O slogan ''Não dê esmola, dê oportunidades'', criado pelo Programa Sinal Verde, da Secretaria Municipal de Assistência Social, reflete o posicionamento da Igreja Católica.

''Dar esmola pode ajudar a manter a pessoa na situação de mendicância'', afirma Rodrigo Eduardo Zambon, gerente da Cáritas Arquidiocesana de Londrina, rede de atuação social da Igreja Católica.

Em entrevista à FOLHA ele faz afirmações contundentes e alfineta: ''A pobreza é preocupante, mas tem solução. Basta vontade política.''

Por que a Igreja Católica orienta a não dar esmola?
A Igreja Católica tem uma doutrina social com vários princípios que orientam a não olhar simplesmente a necessidade imediata. É preciso se perguntar porque a pessoa está nessa situação. A Igreja quer que a sociedade reflita que o ato de dar esmola pode ajudar a manter a pessoa na situação de mendicância. As pessoas precisam se preocupar porque existe a situação de pobreza. Nós estamos em um país democrático, com leis que garantem assistência social, saúde, educação e previdência. Então por que existem pessoas nessa situação?

É pior dar esmola ou ignorar a situação e não tomar nenhuma atitude?
É difícil. A gente não sabe quem é pior. Se é o que dá esmola para aliviar a consciência ou o que vira as costas, acreditando que já faz a sua parte pagando os impostos. As pessoas acham um absurdo a corrupção na política, mas o que elas fazem para mudar a situação? Em outros países a população não fica quieta. A gente vê uma criança na rua, se depara com os casos de dependência química e deixa para lá.

O que fazer para tirar as pessoas da rua?
É preciso se envolver. É importante participar de uma instituição filantrópica, acompanhar os programas sociais, cobrar atitudes do vereador no qual você votou. As pessoas dizem que não têm tempo para fazer isso, mas é preciso se organizar em comunidades, clubes, pastorais da Igreja. O importante é se envolver e não simplesmente dar dinheiro.

Muita gente generaliza dizendo que a esmola sustenta o vício de quem pede. Mas e se a pessoa realmente quer dinheiro para comer, sustentar os filhos...
É preciso verificar com o poder público. Por exemplo, se é uma criança ou um adolescente morador de rua a Secretaria Municipal ou a Secretaria da Criança e do Adolescente tem que responder por isso.

Mas as secretarias cumprem seu papel?
Ainda não é o ideal, mas existem vários trabalhos por parte das secretarias e das instituições. No Brasil os problemas têm uma dimensão muito grande. Estamos correndo atrás de um prejuízo histórico. Falta muita coisa ainda.

A sociedade oferece oportunidades?
É complicado. A gente percebe que crianças e adolescentes que chegam ao Ensino Médio têm uma chance. Mas as que estão à margem disso têm um futuro incerto. A sociedade poderia oferecer mais oportunidades, principalmente na área da educação. O auxílio material é o básico, é para sobreviver. Para a pessoa sair dessa situação é preciso cultura. É um investimento a longo prazo e urgente.

Há quem resista em sair das ruas para não se sujeitar a regras. Muitos são retirados da situação de mendicância, mas após um tempo voltam a pedir. Não é preciso modificar o sistema?
Tem gente que já criou um vínculo com a rua. É importante considerar as pesquisas que as universidades fazem para detectar porque isso acontece, qual a possibilidade de mudança. Por meio das pesquisas é possível estudar as melhores formas para seduzir a pessoa a sair da rua. O trabalho do assistente social e do psicólogo é muito importante, pois ajuda na mudança de comportamento.
Mas é preciso modificar a infraestrutura. O adolescente é abordado pelo Sinal Verde para fazer um curso, mas quando ele volta para casa a realidade é o tráfico. O trabalho não deve ser feito só com o adolescente, mas com todo o conjunto. A pobreza é preocupante, mas tem solução. Basta vontade política.

Há vontade política?
O que a gente vê são muitas promessas e poucas mudanças.

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