Carga pesada sobre a sociedade
Maria Lucia Victor BarbosaUm ditado africano, que ouvi há algum tempo, talvez seja bastante sugestivo para ilustrar a greve dos caminhoneiros havida esta semana, e a atitude do governo diante do movimento que conseguiu em grande parte parar o Brasil: ‘‘Quando dois elefantes brigam, a relva é quem sofre’’. Naturalmente, a ‘‘relva’’ somos nós, simples cidadãos, que ficamos imprensados entre a radicalização dos grevistas, e a morosidade e a inoperância governamental que, aliás, está para completar 500 anos.
Esclareça-se que governo significa o complexo de órgãos que institucionalmente têm o exercício do poder, e não o poder isolado de um homem, como é comum entender-se no Brasil onde, por conta de nossa cultura política e formação histórica, sobressai o poder personalizado, especialmente o do presidente da República. Mas como explica Lúcio Levi, com certeza se referindo a países de cultura cívica mais evoluída, ‘‘só em casos excepcionais, quando as instituições estão em crise, o governo tem caráter carismático e sua eficácia depende do prestígio das qualidades pessoais do chefe do governo’’.
Em todo caso, especialmente no nosso, é o presidente da República quem responde em última instância perante a opinião pública pelas decisões, atos e mesmo omissões havidos no seu governo. Por isto, seria conveniente ao presidente Fernando Henrique Cardoso - cujo grande mérito de vencer a inflação e manter a economia estável através do Plano Real, sem dúvida, passará para a posteridade - uma reeleitura de ‘‘O Príncipe’’, de Nicolau Maquiavel. Isto lhe ensejaria, com certeza, algumas reflexões proveitosas sobre a greve dos caminhoneiros e, porque não, sobre o MST, pois num determinado parágrafo de sua magistral obra, aconselha o genial florentino: ‘‘Se as discórdias são previstas, podem ser remediadas facilmente; se se espera sua ocorrência, o remédio deixará de ser oportuno, tornando-se a moléstia incurável’’.
No caso da greve dos caminhoneiros, o governo, mais especificamente, o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, fez ouvidos moucos à Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e à Associação Nacional das Empresas de Transporte de Cargas, quando estas entidades, já em maio, alertaram para os problemas do setor como o alto custo do pedágio e fretes desatualizados em relação aos custos das empresas.
Enquanto isto, Nélio Botelho, uma figura que saiu da obscuridade para a fama propiciada pela mídia (será ele o Stédile da carga pesada?) e que se autonomeou porta-voz do Movimento União Brasil Caminhoneiro, vinha à vontade desde o ano passado, através de fax, telefone, correio, panfletos e do seu programa diário na Rádio Globo, no Rio de Janeiro, fomentando e organizando a greve. Ninguém no governo ligou para ele ou para o alerta das entidades oficialmente organizadas para defender a classe, e o resultado foi sentido pela ‘‘relva’’.
Não faltou gente para dizer que as reivindicações eram justas. De fato, não é preciso ser caminhoneiro para odiar os onerosos pedágios, a maioria impingidos por governos estaduais, e que, diga-se de passagem, de nada servem para melhorar ou manter as igualmente odiadas e péssimas estradas, essas vias assassinas que se multiplicam pelo País.
Em compensação, apareceram líderes sindicais para acusar Botelho de oportunista, e sobre a pauta de reivindicações, muitas das quais estapafúrdias, que ele apresentou ao governo, disse Valmor Weiss, presidente da Federação dos Transportadores do Paraná: ‘‘Ele não é uma liderança nacional. É estrelismo. Quem dá o reajuste nos fretes é o empresário’’.
No quarto dia a greve acabou, depois de causar enormes prejuízos e transtornos à sociedade, ou seja à ‘‘relva’’. Quem irá ressarcir as consideráveis perdas impingidas por seu Botelho e seus caminhoneiros em nome de suas reivindicações corporativistas? Isso ninguém sabe. O que se sabe é que o movimento grevista parou porque o governo finalmente lembrou que temos exército. E quando se fala em exército, é pernas pra que te quero que ninguém é de ferro. Seu Botelho recuou de um lado, o governo cedeu de outro. Parece, inclusive, que os caminhoneiros vão ter uma legislação de trânsito especial. Assim, quem sabe, poderão passar tranquilamente por cima dos outros veículos e infringir todas as normas de trânsito. Afinal, eles são grandes, o que parece transmitir um sentimento de prepotência a estes mastodontes das estradas, que com suas cargas pesadas e sua costumeira imprudência deixam atrás de si as perigosas estradas esburacadas que todos temem.
Sim, foram quatro dias em que o Brasil se tornou refém do exultante radialista Botelho e seus companheiros. Um pouco antes, a mesma greve foi tentada na Argentina. O presidente Carlos Menem avisou que decretaria o estado de sítio e o movimento nem começou. Aqui, estamos assistindo só ao começo. Aliás, o começo mesmo foi na semana passada com o teste de São Paulo, quando motoristas de ônibus bloquearam a área ao redor da prefeitura e criaram o caos urbano. Agora, todos os ‘‘botelhos’’, testaram sua força e gostaram. Eles poderão voltar à carga, que aliás se demonstrou pesada. Afinal, mostraram-se mais ‘‘eficientes’’ para paralisar o Brasil do que o MST, que significativamente se uniu aos caminhoneiros grevistas em alguns Estados.
É interessante observar que, como os caminhoneiros, o MST começou com uma reivindicação justa: a reforma agrária. Depois, mostrou a que veio, pilhando, queimando, arrasando propriedades rurais, praticando atos de vandalismo em espaços públicos e declarando abertamente seus propósitos revolucionários de tomada do poder. Só que o MST não está conseguindo desestabilizar o campo para desestruturar as cidades com a velocidade pretendida. E aí aparece seu Botelho e sua greve selvagem, capaz de fazer inveja à CUT, que nunca conseguiu lograr a almejada paralisação nacional. Que carga pesada!
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

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