Carência alimentar pela insensatez
Prefere-se acreditar que seja equivocada a previsão da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação de que só em 150 anos se conseguirá diminuir pela metade a fome no mundo. Atente-se que a referência é apenas a metade e não a totalidade, longe portanto de eliminar o problema. Mas a evolução rápida da tecnologia haverá de continuar aumentando a produção alimentar, a menos que a tragédia do aquecimento global venha mesmo a acontecer, com a redução das áreas de plantio. Por isso é alentador ao menos crer que aqueles cálculos não sejam uma certeza.
Previsões à parte, a dura realidade é que há no momento 925 milhões de famintos, ou quase um quinto da humanidade. O número elevou-se de dois anos para cá. O descompasso entre produção e consumo deve-se à má distribuição, atribuída ao baixo (ou nenhum) poder aquisitivo desse numeroso contingente e à insensibilidade de governos e da própria sociedade.
Se o mundo veio se tornando melhor de se viver pela ampliação das comodidades, a população também cresceu justamente nas nações mais empobrecidas. A loucura do monumental gasto em armamento levou grandes e pequenos países e esse desequilíbrio, porque o que se investe na guerra fria seria suficiente para dar comida e moradia decente para todos os carentes do planeta. Dizer-se que o aumento de famintos ocorre pela elevação no preço dos alimentos é meia verdade e apenas uma ínfima parcela do problema, porque o mal reside na insensatez dos homens em não preocupar-se com isso. Só uma minoria relutante se manifesta, e por essa via se conhece os números desse dantesco drama social. Recursos existem em abundância no mundo para que todos possam viver bem, mas eles são mal distribuídos ou mal aplicados. O individualismo tomou o lugar do interesse pelo coletivo.
Um exemplo é o Brasil, onde se vive um momento de melhoria da classe pobre, mas isto se deve à ajuda assistencial em dinheiro, o que é necessário em face da miséria de muitos, mas não emancipa o cidadão e o manterá sempre dependente e em estado de pobreza. Com tudo isto, neste país que tem suficiente produção de alimentos tanto para o consumo interno quanto para exportar, 35 milhões de patrícios vivem em estado de carência alimentar. Também aqui ocorre o fenômeno da má distribuição, pelas mesmas razões do que ocorre no mundo.





