Care inicia ações no Brasil
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sábado, 04 de maio de 2002
Mary Persia<br>Especial para a Agência Estado 
São Paulo Na década de 70, Edmar Bacha deu ao Brasil uma definição que, 30 anos depois, nada tem de anacrônica. Disse o economista que o País é uma Belíndia, mistura de Bélgica com Índia: pequenas ilhas de riqueza e desenvolvimento cercadas por imensos bolsões de miséria. A frase, denunciadora dos sérios problemas de distribuição de riqueza do País, resume a análise que a Care International faz do Brasil. A organização não-governamental existe há 55 anos e lançou oficialmente sua seção brasileira no final de abril.
As ações da entidade no País visam à diminuição da desigualdade social. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aqui, 1% das pessoas mais ricas detêm o mesmo que 50% das mais pobres. Os mais ricos têm até 30 vezes mais do que os mais pobres, o que confere ao Brasil o primeiro lugar no ranking de desigualdade social. Na Suécia, que figura na outra ponta da lista, a diferença é de no máximo seis vezes.
Por conta dessa característica, uma das particularidades da atuação da Care no Brasil está na captação de recursos, que acontecerá preferencialmente dentro do País ao contrário do procedimento-padrão, que atrai verbas em países ricos para as 60 nações pobres em que a organização está presente. O Brasil é um País rico, com recursos monstruosos. O problema é a má distribuição, assinala Marcos Athias Neto, diretor executivo da Care Brasil.
A entidade chega ao País avalizada por nomes importantes no cenário nacional. Integram seu conselho deliberativo o cientista político e empresário Bolívar Lamounier; Jacqueline Pitanguy, socióloga, cientista política e participante ativa do movimento feminista no Brasil; e Sueli Carneiro, educadora e uma das líderes do movimento pelos direitos dos negros no País, entre outros. Da equipe executiva participa ainda o geógrafo e indigenista José da Cunha Karajá.
Um dos principais focos de atuação da ONG aqui é a geração de renda nas camadas sociais mais baixas. Athias argumenta que redistribuir renda é papel do Estado, não de uma ONG, e que portanto a organização optou por criar uma nova renda para quem não a tem. No Brasil, 84% dos chefes de família das camadas mais pobres trabalham em negócio próprio ou não têm carteira assinada.
Já temos um País de empreendedores, mas não há apoio aos que estão nas camadas mais baixas, considera o diretor. Precisamos articular os apoios necessários para que eles deslanchem, seja através de crédito, capacitação para análise estrutural, assistência técnica ou capacitação de jovens.
Outro foco da Care é a educação infantil. Uma análise elaborada pela entidade revelou que há um hiato substancial na educação das crianças de 4 a 6 anos. Nessa idade, observa Athias, as crianças das classes mais altas desenvolvem sua capacidade cognitiva, tanto pela convivência com os pais, que geralmente têm escolaridade superior, quanto pela rotina dos maternais e jardins de infância. Elas entram no Ensino Fundamental com capacidade a alfabetização, algumas vezes, chegam já alfabetizadas. Nas classes baixas, os pais não têm escolaridade e a criança não frequenta o ambiente escolar. Muitas não completam a quarta série.


