Cara de governo
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segunda-feira, 09 de junho de 1997
José Nêumanne 
O senador Pedro Simon (PMDB-RS) causou a maior celeuma na República ao acusar o governo Fernando Henrique Cardoso de ter a cara do PFL no programa Jô Soares Onze e Meia, do SBT. A confusão começou no Senado Federal, quando o presidente da Casa, Antônio Carlos Magalhães, tomou as dores do presidente e do partido, disparando sua metralhadora giratória em todas as direções, com a qual atingiu até o líder do PMDB, Jader Barbalho (PA). E continuou com a manifestação oficial da Presidência, segundo a que o PFL, coitadinho, afinal de contas, tem poucos ministérios no governo para ser acusado de estar lhe dando a cara.
O motivo da confusão toda apenas repete duas constatações muito frequentes da esquerda brasileira. A primeira delas é de que o professor Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e pai da teoria da dependência, teria traído suas causas originais, abraçando o ideal neoliberal. A segunda é a de que o PFL, e mais precisamente o clã baiano de ACM, está tomando conta do governo, que a social-democracia tupiniquim ganhou, ainda no primeiro turno da eleição presidencial.
Para começo de conversa é bom esclarecer que neoliberais não falam, não frequentam restaurantes nem dão audiências, simplesmente por não existirem na vida real. O rótulo é apenas um mito, uma espécie de fantasma, um alvo fictício escolhido pela esquerda para servir de sparring, agora que a guerra fria acabou. Fernando Henrique não se vê como um neoliberal. Quem acha que ele é neoliberal é a oposição, que o combate. O senador Pedro Simon, por exemplo.
Quem conhece bem os três sabe que, se o presidente ainda fosse apenas um senador da República, com toda a certeza teria saído em desabalada defesa de seu velho amigo e companheiro ideológico Pedro Simon contra Antônio Carlos da Bahia, identificando com tudo quanto ele sempre combateu, seja como professor universitário, seja como acólito do Dr. Ulysses Guimarães, seja como parlamentar social-democrata.
A política é assim mesmo e nós, que estamos de fora dela, precisamos aprender a conviver com sua práxis. Acontece que (1) o mandato de Fernando Henrique no Senado acabou e ele agora é FHC, o presidente da República; (2) o Dr. Ulysses já morreu e Pedro Simon não ajuda em nada ao governo do antigo companheiro; e (3) quem ajuda é ACM, e como ajuda!
Chatô, o real, não o personagem de Fernando Morais, dizia que a coerência é a virtude dos imbecis, mas o presidente nem precisa recorrer a essa pérola pragmática para justificar o fato de ter virado a casaca, dura expressão popular que traduz tudo o que Simon disse na televisão. O Brasil está passando por um momento histórico, que é a transformação do velho Estado nacional interventor, criado por Getúlio Vargas em 1930, no moderno Estado regulador. Ou fazia isso ou perdia o compasso da História. Fernando Henrique, o sociólogo e o senador, sabia muito bem disso. Eu mesmo testemunharia em seu favor, pois me lembro de claros pronunciamentos seus nesse rumo no plenário do Senado.
ACM ainda não estava lá, mas Pedro Simon, sim. Na certa, dormindo, diria o presidente do Congresso. O certo é que o PFL entendeu bem isso. O senador gaúcho, que é uma santa figura, um político combativo, coerente e probo, não. Então, do lado correto da história está a dupla FHC-ACM, embora no passado defendessem posições tão distantes.
Outro equívoco cometido por Simon é o de lamentar o fato de o governo estar adquirindo a cara do PFL. Não é bem isso. O PFL é que tem a cara do governo, de qualquer governo, conforme poderá comprovar qualquer historiador amador da política brasileira. Se for preciso, o partido, que encarna o demônio neoliberal, comprará fantasias socializantes para continuar fazendo o que aprendeu a fazer bem desde sempre: mandar. O líder pefelista na Câmara, Inocêncio Oliveira, que pode ser gago, mas inocente nunca, aliás, já anda espalhando aos quatro ventos que sua sigla vai mudar para Partido Social Liberal, PSL, incorporando o recente triunfo do trabalhista Tony Blair na Velha Albion e do socialista Lionel Jospin na antiga Gália.
Com o know how e o savoir faire de poder que a tchurma de Magalhães, Maciel e Bornhausen tem ninguém se espante se eles terminarem exportando-os para a política européia.


