No auge da guerra de secessão dos Estados Unidos, em 1863, o então presidente norte-americano Abraham Lincoln, ao inaugurar o cemitério nacional de Gettysburg, proferiu memorável discurso, estabelecendo conceitos inovadores para a democracia e o capitalismo. Nos escombros da luta armada, o estadista, com inusitada dose de otimismo e lucidez, formulava diretrizes teóricas - que a História demonstrou exequíveis em termos práticos - para embasar o desenvolvimento de seu país.
Neste limiar de 1998 algumas frases do discurso de Lincoln adquirem atualíssima analogia com a luta do Brasil para se inserir de forma não passiva no contexto da globalização. ‘‘Não ajudarás o assalariado se arruinares aquele que o paga’’. ‘‘Não ajudarás os pobres se eliminares os ricos’’. ‘‘Não evitarás dificuldades se gastares mais do que ganhas’’.
Indiscutivelmente, a política monetária do País, agravada pela Medida Provisória 1.602, que substitui as reformas modernizadoras como âncora da estabilidade do Real, contraria aqueles princípios. Afinal, impostos demasiadamente onerosos, juros altíssimos, ausência de crédito e linhas de financiamento de longo prazo, âncora cambial e déficit público são autêntica artilharia pesada contra os que batalham para produzir, trabalhar e forjar o desenvolvimento.
Por outro lado, apesar das dificuldades internas, dos efeitos psicológicos imediatos do pacote fiscal e das estimativas de um crescimento mais moderado do PIB em 1998, não se deve vislumbrar o Ano Novo com pessimismo exacerbado. É preciso lembrar que, ao longo dos últimos 30 anos, os empresários e trabalhadores brasileiros enfrentaram - e venceram - batalhas mais árduas do que a atual. Sobreviveram aos ataques da inflação de dois dígitos, a crises internacionais, como a do petróleo, a uma sucessão infindável de pacotes ‘‘mágicos’’ e fracassados, mudanças casuísticas e abruptas das regras do jogo, trocas quase semestrais de ministros da Fazenda e até mesmo o impeachment de um presidente da República, com todos os reflexos que um episódio como esse costuma causar.
A capacidade de superação das forças produtivas nacionais e da sociedade como um todo tem sido, de fato, o principal trunfo do País ao longo do século. Talvez esta tenacidade seja o verdadeiro milagre brasileiro, evidenciado com maior ênfase após a redemocratização, quando se tornou mais perceptível que a Nação é maior que o Estado. Por isso mesmo, independentemente das dificuldades conjunturais internas e dos desafios que a globalização impõe aos países emergentes, é importante lembrar outra frase do antológico discurso de Abraham Lincoln: ‘‘Não fortalecerás a dignidade e o ânimo se subtraíres ao homem a iniciativa e a liberdade. Não poderás ajudar aos homens de maneira permanente se fizeres por eles aquilo que eles podem e devem fazer por si próprios’’. E a Nação tem muito o que fazer em 1998.
Às forças produtivas cabe redobrar o esforço para ampliar os níveis de qualidade, realizar os investimentos possíveis em modernização e produtividade e gerar empregos. À sociedade civil organizada e entidades de classe, patronais e dos trabalhadores, impõe-se a responsabilidade de, exercitando as prerrogativas da cidadania, continuar pressionando democraticamente o governo e o Congresso pela realização das reformas e estabelecimento de condições mais favoráveis ao crescimento sustentado.
Diante da luta a ser travada, não há lugar para pessimismo ou derrotismo, pois, num horizonte de médio prazo, são muito boas as possibilidades da economia brasileira, após o reordenamento constitucional. Portanto, não se pode capitular neste momento crucial da batalha da globalização, na qual as empresas brasileiras - sem protecionismo, subsídios e outros benefícios do passado - devem estar preparadas para atacar mercados em todo o mundo e defender seus próprios territórios.

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