Capitalismo moreno - André Stumpf
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de abril de 1999
André Stumpf 
Os economistas brasileiros estão criando um capitalismo peculiar. Não há referências sobre algo semelhante no mundo. Durante o vigoroso ataque especulativo de janeiro passado, o Banco Central teve perdas, segundo as cifras divulgadas ontem, de mais de US$ 7 bilhões. Tudo em nome da manutenção da saúde do sistema financeiro.
Isso é incrível. Não existe paralelo ou algo parecido nos países desenvolvidos. No Brasil, inexiste o risco. Quem jogou errado deve pagar. E vários bancos, embora cercados de consultores e assessores, erraram feio. Seria natural contabilizar perdas. O caso do Marka é escandaloso. O banco apostou 20 vezes seu patrimônio. E o Banco Central foi lá e segurou o prejuízo. Pior: os diretores da instituição pública asseguram a lisura dos procedimentos e acham que agiram corretamente.
O fato em si é absolutamente escandaloso. Em um mês, para segurar cotações e evitar perdas, o Banco Central jogou pela janela quase a metade do déficit da Previdência. Ainda mais escandaloso é que os diretores justifiquem a ação com naturalidade e entendam que agiram corretamente. A maneira de enxergar o mundo e os valores com que lidam esses senhores está descolada da realidade. É difícil perceber onde está o escândalo: se no pagamento dos prejuízos de investidores com dinheiro do contribuinte ou na naturalidade com que os gestores dos dinheiros públicos agem.
Quando houve a queda da bolsa de Nova York, em 1929, muita gente perdeu dinheiro. Fortunas viraram pó de um dia para o outro. Milionários viram as fortunas escorrer pelo ralo. Aqui não acontece nada disso. O Banco Central decide honrar os prejuízos de terceiros com o dinheiro do contribuinte. E tudo bem. Não há verbas para melhorar escolas nem reequipar hospitais. Falta verba para saneamento. E os aposentados são responsabilizados pelas desgraças nacionais. Na outra porta, beneficia, de maneira assumida e escancarada, o sistema financeiro.
A questão, portanto, é mais de conceito. O capitalismo que está sendo produzido nestes tempos confusos é diferente do modelo clássico. O investidor, sobretudo o estrangeiro, recebe todas as benesses e garantias. O cidadão brasileiro mantém esse sistema em prejuízo próprio, tanto pessoal, na forma de impostos cada vez mais elevados, quanto na forma de prestação de serviços, em queda livre no quesito qualidade.
É difícil entender e perceber o objetivo perseguido pelos monges dessa seita de adoradores da recessão. Em pouco tempo, a seguir por esse caminho, o desemprego terá feito desaparecer uma boa fatia do mercado consumidor brasileiro. A queda dos serviços sociais fará com que o futuro do país seja comprometido desde agora. Tudo isso em benefício de uns poucos investidores nacionais ou estrangeiros. É um modelo de economia que não contém as características básicas do capitalismo praticado nos Estados Unidos ou na Inglaterra. Lá bancos quebram e pessoas arcam com prejuízos decorrentes de negócios malfeitos. Aqui, não. É o capitalismo moreno. Ou, como queria o professor Fernando Henrique, o capitalismo dependente.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília.


