Da Ásia à Costa Oeste dos Estados Unidos, nos dois hemisférios da Terra, as bolsas de valores foram varridas por forte desconfiança. Entre os que apostam em ações, ninguém crê em ninguém. O dínamo que faz brilhar tamanha falta de crédito e ofusca as perspectivas de crescimento de todas as economias do planeta já não tem origem em quadros eleitorais indefinidos de países em desenvolvimento. Nem é a decadente e surpreendente Argentina de cinco presidentes em seis meses nem é o incerto Brasil, onde o oposicionista Luiz Inácio Lula da Silva pode eleger-se presidente e interromper uma sequência de dez anos de poder do grupo social-democrata que navega como satélite de Fernando Henrique Cardoso.
A culpa pelo fato de o mundo ter prendido a respiração e cruzado os dedos, ontem, recai exclusivamente sobre a incompetência administrativa do Estado americano. Algoz do sistema que deveria regular, a Security Exchange Comission (SEC), órgão semelhante à nossa Comissão de Valores Mobiliários (CVM), deixou de fazer a lição de casa com a WorldCom Inc. Com isso, o mundo assistiu à reedição do escândalo da Enron. Mais uma vez, um gigante mentiu em seus balanços, enrolou acionistas, negociou papéis falsos e implodiu as bolsas.
O governo do presidente George W. Bush, onde trabalha o secretário do Tesouro Paul O’Neill, carrega parcela considerável pelo desmantelo do mercado global de ações. Por que o senhor O’Neill não cuidou de fiscalizar o que lhe era devido? Há uma semana ele abriu a boca para pronunciar uma estupidez contra Lula e anunciar a ‘‘desconfiança’’ americana em relação ao rumo político do Brasil. Americano algum, nem mesmo o celerado presidente Bush, homem que conseguiu a proeza de desmontar a precária paz em diversos pontos do mundo onde pontificavam conflitos inertes, tem a prerrogativa de nos ensinar o melhor caminho para realizar utopias políticas. Ao permitir o engodo da Enron e da WorldCom em seus mercados acionários, o governo dos Estados Unidos disseminou a desconfiança no sistema que os tornou potência – o capitalismo. Agora, teremos de desenhar nova lógica global. A que tínhamos já não serve.
LUÍS COSTA PINTO é jornalista em Brasília

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