Capitalismo e bem-estar - Valmor Bolan
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de agosto de 1998
Valmor Bolan 
A crise do Sudeste Asiático, agravada desde o crash de outubro de 1997, tem sido a causa de apreensão de inúmeros analistas internacionais. Não se trata de uma situação virtual, mas real. A Indonésia e o Japão foram os países mais abalados recentemente. A turbulência do mercado financeiro mundial vem provocando instabilidade generalizada. Na ocasião do crash, alguns especialistas chegaram a dizer que o Brasil seria a bola da vez. No entanto, apesar do duro pacote fiscal no final do ano passado, o Real continua estável, comemorando inclusive seu quarto ano de existência. Mesmo assim temos que manter a cautela. A velocidade dos acontecimentos tem pego muita gente de surpresa. De qualquer forma, a crise reflete que algo de podre está na lógica capitalista.
O Japão, até então a segunda economia do mundo, começa a perder o vigor do início dos anos 90 e evidenciar o seu esgotamento. Não só o setor econômico, mas também o político. É notória a corrupção dos últimos governos, incapazes de conter a avidez da especulação e toda espécie de inescrupulosidades. Não é só no Japão que o fenômeno da corrupção assumiu grandes proporções. A Itália, por exemplo, raras vezes conseguiu formar um gabinete do pós-guerra, que não tenha sido alvo de denúncias e escândalos. Tais acontecimentos mostram que a cultura do tirar vantagem em tudo não se restringe apenas no Brasil. A corrupção grassa no mundo inteiro, não só nos países pobres, mas também nos países ricos. Aliás, a condição de país rico favorece ainda mais a prática de abusos e atos ilícitos.
Temos que aprender com as lições de História. Os acontecimentos no Sudeste Asiático demonstram nitidamente que não compensa a lógica da especulação e no afã do lucro fácil. Governos e sociedades precisam ter o maior compromisso com a responsabilidade comprometendo-se com a elaboração de leis mais rigorosas, que inibam as práticas perversas na gestão dos negócios públicos e privados. Sem limites, nos tornaremos o homem lobo do homem, na imagem de Thomas Hobbes. Aliás, é um pouco assim que temos agido, contaminados pelo lado perverso do capitalismo selvagem.
Quase dez anos após a queda do Muro de Berlin, começamos a observar que o capitalismo não é eficaz na distribuição da justiça social. Afinal, como pode o capitalismo dizer que está vitorioso, se milhões de pessoas ainda morrem de fome em diversas partes do mundo, e a violência aumenta assustadoramente por toda a parte?
Precisamos de um sistema sócio-econômico que coloque a vida humana como bem a ser vivido com dignidade. Não é este o valor do capitalismo. Enquanto governos e instituições sociais e empresariais estiverem fazendo o jogo do pragmatismo e do egoísmo mais vil, a humanidade continuará longe da sociedade justa e feliz que desejamos.
- VALMOR BOLAN é doutor em Sociologia em Guarulhos.


