Há uma desordem financeira na Nova Ordem unipolar que governa (ou desgoverna?) o mundo. A crise bolsística de Hong-Kong, como uma cadeia de dominó fez ruir na Ásia, Europa e América a credibilidade nos mercados de capitais mundiais. É a força truculenta do ‘‘capital-motel’’. Aquele que chega tarde, passa a noite e vai embora. O sistema financeiro
derivativo internacional é isso: um motel de alta rotatividade. Movido pela especulação desenfreada nos mais diferentes recantos do mundo.
Há ‘‘motéis’’ e motéis. Quem nos Estados Unidos já percorreu a famosa estrada ‘‘Rota 66’’ teve a oportunidade de se hospedar nos motéis, à beira da estrada, de muito bom nível. São hotéis familiares normais. Não é desse que estamos falando. É do motel como é conhecido no Brasil: ninho de amor de curta duração.
O sistema financeiro internacional é hoje, nesse tempo de globalização, uma casa de tolerância. É lenocínio ativo com ‘‘gangs’’ e ‘‘famiglias diversas’’. A tradicional ação mafiosa é pinto quando comparada com os atuais donos do mercado do dinheiro no mundo. É uma lei da selva, um vale tudo absoluto.
Quem tiver dúvida basta apenas fixar-se no furacão das últimas semanas. Hong-Kong, Tóquio, Cingapura, Londres, Paris, Nova York, São Paulo/Rio, Buenos Aires, México, etc., perdas a nível de bilhões de dólares ocorreram em cadeia e deve se repetir proximamente. Fortunas viraram pó da noite para o dia. E fortunas especulativas foram feitas com igual rapidez.
É o cenário internacional contemporâneo, determinado pela ditadura do mercado destituído de regulamentação. Enquanto se movia na direção da selvageria contra os direitos sociais, a igualdade, a fraternidade e a solidariedade, merecia fartos e vastos elogios. Uma certa noite, numa das principais redes de televisão do país, via uma apresentadora bela e risonha anunciar que cerca de 15 mil trabalhadores iriam perder o emprego. Isso era bom para a economia, em função do custo-benefício e da eficiência produtiva dos novos tempos, sentenciava a robótica figura.
A crise das bolsas mundiais expôs uma verdade: ‘‘O capital-motel não arrasa apenas o ser humano, destrói nações, aniquila políticas econômicas racionais e consistentes. Amplia o fosso entre nações ricas e pobres consolidando uma miséria global. O tempo nesse fim de século e entrada em novo milênio não será da ‘‘Pax Romana’’ como se tentou anestesiar a consciência mundial nos últimos anos. A ‘‘Pax Global’’ pode ter o mesmo destino da ‘‘Pax Romana’’. Lá, o Império de Roma acreditava que tudo estava sob controle da Palestina à Bretanha, da Germânia à Gália, da Ibéria à Numidia. Tudo falso. Quando as hordas se lançaram sobre Roma, o Império do Ocidente foi trucidado. Não é à toa que a história é a mestra da vida.
Nesse tempo de globalização é preciso enxergar com objetividade essa realidade: o mundo vive hoje um diálogo da guilhotina com o pescoço. As nações ricas, prósperas e desenvolvidas estão a impor um novo estatuto de dependência à grande maioria dos povos do mundo. E isso, convenhamos, não é bom para ninguém.
O Brasil tem de retirar dos últimos acontecimentos uma inestimável lição. A de reforçar uma consistente política de reformas estruturais que venha a garantir mecanismos ágeis para o Estado nacional. Que deve e tem de ser moderno, competitivo, antipopulista, mas integrador da cidadania. Sob pena de ver como realidade a poesia de Caetano ‘‘O Haiti não é aqui. Mas está ficando, socialmente, perto daqui’’.

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