Capital intelectual é o futuro
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de fevereiro de 1997
Gilclér Regina 
A maioria dos países em desenvolvimento desperdiça todo seu dinheiro tentando fazer uma coisa aqui e outra ali. Tentar fazer de tudo um pouco não leva a nada. Se um país é grande e rico como os Estados Unidos, com sua população de 265 milhões de pessoas, pode pensar em diversificação. Mas se não é, torna-se necessário buscar um foco bem definido. O importante é buscar um foco para a economia e fixar-se nele. Já existem vários exemplos bem-sucedidos.
Na Coréia do Sul o modelo de desenvolvimento escolhido foi a criação de grandes corporações como a Goldstar e a Sansung, para competir com as grandes dos EUA, do Japão e da Europa. Se você for a Taiwan, vai ver que eles se especializaram em manufatura, produzindo componentes de microeletrônica mais barato que outros países, como o caso da Acer, vendidos com a etiqueta de outros fabricantes.
O sul do Brasil poderia estar participando e com alguma vantagem do foco da agribusiness, produzindo frutas frescas quando é inverno no Hemisfério Norte e as pessoas têm dinheiro e gostam de consumir esse tipo de produto e ainda por cima estaria seguindo uma vocação da região, a exemplo do Chile e da Argentina. O Japão, por exemplo, tem nas exportações de automóveis e produtos eletrônicos, uma participação de 70%. Ou seja, o país só exporta dois tipos de produto e é o segundo mais rico do mundo.
Para quem achar que a especialização causaria dependência excessiva, vejamos o caso da Austrália que não produz sequer um carro ou trator ou qualquer outro produto, manufaturado, e os australianos têm um dos mais altos padrões de vida do mundo. A questão não é diversificar a pauta de exportações, mas sim o que pode fazer bem. É preciso planejar as próximas décadas de maneira consistente porque o processo é longo. Se olharmos a Coréia do Sul, ela já tem vários anos de bom desempenho mas sabe que ainda falta percorrer um longo caminho. Os Estados Unidos levaram 120 anos para alcançar a Inglaterra e o Japão começou sua luta de bom desempenho há mais de 50 anos e ainda não conseguiu ultrapassar os Estados Unidos. Historicamente os países da América Latina parecem ir bem 10 ou 15 anos e depois, por qualquer razão, dão marcha à ré.
O desafio agora é transformar o desempenho econômico no equivalente ao maratonista. Esses países podem ir bem em corridas de curtas distâncias, mas não conseguem manter ritmo constante por longos períodos de tempo. Para isso ter estabilidade política é necessário, mas é preciso também ter uma população educada. Se um país não dispõe dessa população com boa escolaridade, nunca conseguirá se desenvolver.
Muitos falam que no futuro próximo a China irá dominar o mundo econômico, mas isso é no mínimo equivocado. A China hoje representa 1% do PIB mundial e os Estados Unidos 24%. Tem uma população enorme, mas sem dinheiro para gastar, e o país demonstrou que pode manter um século de desenvolvimento econômico de sucesso, devido a sua instabilidade política. Se a China é a segunda superpotência militar, mesmo que a renda per capita seja de 400 dólares, ela é muito importante política e militarmente, mas não em termos econômicos.
Se você ler o livro O Futuro do Capitalismo da economia, de Lester Thurow, ex-assessor do presidente Lyndon Johnson, a globalização da economia e o crescimento da indústria são baseados em capital intelectual. Diz ele que só fica rico vendendo para os ricos e ele cita que 75% do PIB mundial está concentrado nos EUA, Japão e Europa. Ele cita por exemplo que a única maneira de combater a União Européia será a União do Mercosul com a Nafta, ou seja, se você não pode com o inimigo una-se a ele, e, além do mais, devemos também estar preparados em buscar outros mercados se quisermos ficar ricos, pois é lá que a riqueza está.
O Brasil nesse contexto precisa urgente caminhar em direção à formação de cérebros-de-obra em substituição da mão-de-obra. O importante é buscar um foco para a nossa economia e não esquecer de nossa gente. Seria muito bom ver o governo FHC, em sua segunda metade, tratando a questão social do País com a mesma dedicação que vem dispensando à estabilização da economia, porque é na dimensão menor de uma sociedade que a vida das pessoas acontece. É lá que comemos, trabalhamos, perdemos o emprego, reelegemos ou não. Se, ao lado de garantir a estabilidade da moeda o governo realizar as reformas que urgem e agir de forma mais eficiente na área social, é possível que FHC ganhe mais quatro anos e nós brasileiros ganhamos 50 anos em direção ao desenvolvimento.
- GILCLÉR REGINA é consultor, autor do livro No Topo do Mundo - Motivados para Vencer e Membro da ASQC/American Society for Quality Control.


