Ruy FabianoCaos
partidário
O colapso do quadro partidário é o dado mais evidente da presente conjuntura política brasileira. A implosão do PT fluminense não é um fato isolado. Meses antes, o partido havia protagonizado conflitos semelhantes, em proporções até mais avantajadas, na reeleição de seu presidente nacional, José Dirceu.
Dirceu, apoiado por Lula, foi desafiado pelo deputado Milton Temer (RJ), aliado de Vladimir Palmeira, numa eleição que quase termina empatada. Disputa partidária, dirão alguns, não é necessariamente uma anomalia. Faz parte do jogo democrático e até o fortalece. Sem dúvida. Mas o que há no PT é bem mais que isso.
Há, na verdade, muitos partidos dentro de um só. O que os une é a mística da legenda, bem como sua estrutura física, capaz de eleger muita gente, país afora. Os conflitos internos são profundos.
O que divide hoje Lula e a facção representada por Vladimir Palmeira não é apenas a figura de Brizola, mas um conflito ideológico. Lula e os moderados petistas estão convictos de que o partido deve buscar alianças, inclusive no campo conservador. Exatamente por não as ter buscado antes, o partido perdeu sucessivas eleições majoritárias.
Os radicais pensam o contrário e recusam-se a celebrar alianças, sobretudo no campo conservador. O resultado é o que aí está: a aliança eleitoral de esquerda, encabeçada por Lula, não é consensual nem no seu partido. Mas o PT não é o único partido partido (o trocadilho é intencional). A rigor, todos o são.
Enquanto o racha petista dá-se em torno de idéias, nos demais dá-se em torno de interesses. PFL e PPB já foram um mesmo partido chamado PDS (que antes se chamou Arena). Dividiram-se em função da campanha eleitoral indireta de 1984, travada entre Tancredo Neves e Paulo Maluf. Não havia idéias em jogo, apenas espaços de poder.
O PSDB surgiu de um racha no PMDB. O motivo era mais nobre. A banda do PMDB que não se considerava podre (ou que considerava estar convivendo com uma banda podre) deixou o partido logo após a promulgação da Constituinte de 1988. Entre os dissidentes
estavam Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas. Sustentavam a necessidade de criar um partido comprometido com idéias e práticas éticas. Surgiu o PSDB, hoje coligado ao PFL, PPB, PTB, PMDB em torno do governo.
Ninguém parece preocupado com ética ou programas. O duelo se dá em torno de cargos. Em praticamente nenhum estado, os aliados do governo se compuseram. No Rio, PFL e PSDB brigam mais entre si que com os adversários PT e PDT. Estes, por sua vez, não fazem por menos: brigam tanto entre si que nem percebem a fragilidade dos adversário.
Alguém já sugeriu que, na eventualidade de nova reforma partidária (a cada década há uma, que jamais resolve o problema da falta de representatividade dos partidos), os aliados do governo se unam numa mesma legenda. É algo tão improvável quanto a união das esquerdas.
Não há, pois, por que estranhar o monumental desinteresse dos eleitores de 16 anos em participar das próximas eleições. O desinteresse, aliás, não é só deles.

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