Candidatos representam o que o povo é
Os candidatos a cargos eletivos são produtos do meio e não de fora dele, por isso que os mais diferentes tipos se apresentam. Se a sociedade é formada por uma múltipla gama de personalidades, com diferenciadas atividades profissionais incluindo figuras exóticas e de comportamentos sociais diversos, é desse núcleo que irão emergir os candidatos. Elegê-los ou não é uma decisão do eleitorado. O que importa é que, no mínimo, sejam honestos em seus propósitos e se mantenham nessa conduta, se eleitos, e prestem bom serviço à comunidade.
E apenas serem honestos ainda não basta, porque é necessário que tenham bom desempenho na função que se propõem exercer. Reportagem de ontem deste Jornal mostrou que dentre os 868 que estão se habilitando à Câmara Municipal de Curitiba existe um travesti, um ex-gari, um sósia de Mister Bean, uma mulher borracheira e uma professora de 76 anos que usa como símbolo de campanha um facão. Esta porque certo dia, na escola, valendo-se de um facão que havia servido para uma dança gaúcha, brandiu o instrumento contra um maloqueiro e o fez correr. Daquelas quase 9 centenas de candidatos, metade não tem curso superior, mas esta é também uma realidade do conjunto da sociedade. Se certo tipo de popularidade não é garantia de eleição, não há porque estranhar os diferentes modelos de postulantes.
Isto vale também para a triste realidade de que, se o círculo social tem gente desonesta, desse meio saem candidatos desonestos, que buscam entrar na vida pública com o único propósito de ter um bom emprego e levar vantagens pessoais. Alguns chegam a afirmar isso aos seus íntimos. Compete aos partidos políticos, como primeira seleção, homologar aqueles com mais aparência de seriedade e com passado de vida limpa, e também entre estes destacar os que mostrem mais preparo. Certo é que os partidos contemplam também algumas sabidas nulidades, e o povo às vezes vota nelas como forma de protesto. Muitos se lembram que, no final da década de 50, os paulistas elegeram vereadores o hipopótamo Cacareco e o macaco Tião, do zoológico público. Eram livres manifestações de repulsa aos políticos - já naqueles tempos e como sempre no Brasil - mas todas essas coisas empobrecem a legitimidade de um pleito eleitoral.
Nos casos citados, importa que o travesti não faça da Câmara um palco de exibicionismo, se guindado ao poder; que Mister Bim (este o nome registrado) não converta seu desempenho em palhaçadas; que a professora Maria do Facão, como é conhecida, use a arma de seus conhecimentos de mestra, e assim com todos aqueles que se elegem. Os simples, mas com virtudes, são ainda melhores que os doutos eventualmente vestidos com pele de cordeiro, mas lobos.





