Candidatos de Cristo?
Candidatos de Cristo?
Joel Samways Neto
Já estamos vendo o nome dos candidatos a prefeito e vereador, para o pleito de outubro. Estão em todos os lugares, out-doors, faixas, cartazes, em divulgações autorizadas em muros residenciais ou de terrenos baldios, e até mesmo na parede das casas dos militantes mais entusiasmados. O santinho é de praxe, de preferência com um calendário no verso, às vezes mais útil do que o currículo do candidato. Curiosamente, não vi muita propaganda de comício. Decerto vão deixar para quando chegarmos mais perto do concurso. Ou isso, ou o problema é de dinheiro mesmo - porque hoje em dia, para arrastar eleitor para ouvir comício, só mesmo se tiver show de alguma dupla de cantores sertanejos. Mas o fato é que nada substitui o comício, a oportunidade de o eleitor ficar cara-a-cara com o seu talvez futuro candidato. Oportunidade para, além de ouvi-lo, poder fazer-lhe perguntas. Eu sei que os marketólogos vão dizer que para isso já existe as home pages, na Internet, na qual todo candidato que se preze há de ter a sua com seu respectivo e-mail. Mas não adianta. Nada garante que as perguntas eventualmente feitas via e-mail serão respondidas pelo próprio candidato. Decerto vai responder um de seus assessores, com boa fluência na língua pátria, e devidamente adestrado nas questões urbanas. No cara-a-cara não tem disso, o candidato mostra mais quem ele realmente é, gagueja, fica vermelho, desconversa... não tem melhor medidor de capacidade.
A importância desse contato direto aumenta quando os concorrentes resolvem fazer elogio em boca própria. Por exemplo, depois do nome acrescentam adjetivos e substantivos ligados a valores éticos e morais. Digno, honesto, trabalhador... Sempre desconfiei desse tipo de postura. Primeiro, porque, em sã consciência, nenhum candidato se apresentaria ao eleitorado rasgando o coração, mostrando seus defeitos, seus preconceitos. Tudo é muito estudado. Ele só vai falar aquilo que o eleitor quiser ouvir, e segundo a cartilha do publicitário contratado. E dignidade, honestidade, disciplina, devem ser o ponto de partida, sempre. Se você, eleitor, conhece o fulano, conhece sua história, seus feitos, sua conduta social etc., fica obviamente muito mais fácil de votar conscientemente. Para quem não conhece, a equipe tem de dar um jeito de apresentá-lo e convencer a respeito de suas qualidades. Não é por outra razão que muitos candidatos aparecem atrelados a alguma militância religiosa. Para os brasileiros, com sua religiosidade à flor-da-pele, isso costuma pegar bem. Afinal de contas, todas as religiões têm uma proposta boa para a humanidade, seja lá qual for sua interpretação da espiritualidade e da transcendência.
Na verdade, esse negócio de o candidato se apoiar em uma religião também pode ser uma faca de dois gumes. Toda religião tem uma doutrina que descreve o perfil ético-moral do seu seguidor. E se for uma religião cristã, fica mais complicado ainda, pois padrão é muito conhecido e o terreno da política é minado. É mais ou menos o que sofrem os jogadores de futebol que se dizem atletas de Cristo. Vez ou outra, um deles segue os princípios e a lógica futebolísticos que incluem a encenação, a manha, a esperteza, o jeitinho e outras gradações da mentira. E daí, como é que fica o Cristo do atleta? O cristianismo prega valores muito claros como a humildade, a simplicidade, o desapego às coisas terrenas, que são frequentemente incompatibilizados com a conduta concreta de alguns atletas. Com os candidatos de Cristo seria diferente? Por acaso existe esporte que se pareça mais com a política do que o futebol? Note-se que conseguir enganar o juiz faz parte do jogo...
Conviria que a pedagogia da cidadania se ocupasse de temas assim. Porque os parlamentos já estão articulados em bancadas dessa ou daquela religião. E alguns partidos também. Tal fato, por si só, não traria dificuldades à sociedade em geral, pois nada é mais democrático do que grupos civis se organizarem para, através dos partidos políticos, alcançarem a gerência do poder. Todavia, se seus candidatos se valerem do fanatismo de algumas doutrinas religiosas para poderem vencer o pleito, passará a ser válido questionar o fenômeno e o epifenômeno de sua candidatura. Até onde o populismo religioso pode nos levar? Até que ponto podem, na prática e na tese, ser coerentes entre si as leis de César e as leis de Deus? E se o fanatismo repercutir no processo legislativo? Então, vamos ao comício.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba





