Candidato não é sabonete
Gaudêncio Torquato
Uma campanha política é uma guerra com cinco batalhas. A primeira é a da viabilização dos nomes na convenção dos partidos. Depois, vem a batalha do crescimento, travada na campanha de rua. No dia 15 de agosto, inicia-se o terceiro estágio, com o embate da programação eleitoral gratuita na televisão e no rádio. O quarto desafio é alcançar o clímax e a quinta frente de luta é contra o declínio, que geralmente atinge alguns candidatos antes do dia D. Para cada uma delas, é preciso munição, bala, investimentos em comunicação, mobilização e articulação de entidades sociais.
Todas essas armas precisam ser compradas e, quem tem mais dinheiro, evidentemente, possui maiores condições de ganhar. Mas, às vezes, só a munição não garante a vitória e é preciso unir habilidade, tática e estratégia. Pobre ganha campanha? Sim, quando tem o apoio de entidades, movimentos sociais ou quando possui uma grande folha de serviços prestados à comunidade.
Para sair na frente, o primeiro passo é conhecer o perfil dos eleitores. Em tempos aéticos de corrupção escancarada, cassação de parlamentares e processos contra homens públicos, a sociedade brasileira não aceita mais promessas vagas, obras faraônicas, mensagens inflamadas e marketings falseadores. O momento é favorável a candidatos que direcionem o foco de seu discurso para os problemas do povo, fixando-se no ‘‘Brasil Real’’ e abandonando propostas grandiloquentes, substituindo-as por propostas simples, viáveis e próximas ao dia-a-dia das pessoas.
A desconfiança generalizada torna-se, então, a grande responsável pelo paradigma político que se vislumbra. A sociedade brasileira começa a analisar o processo de maneira mais atenta e racional. O voto sai do coração e sobe à cabeça. É o fim do sistema clientelista, que se apóia no empreguismo e na doação de favores. O eleitor quer um candidato honesto e com experiência administrativa, mas que seja banhado pelo conceito da assepsia, da higienização política. O ideário da inovação e da renovação ganha espaço em meio a nomes carimbados do quadro nacional.
Percebe-se, por meio de pesquisas qualitativas, que o eleitor também quer votar em pessoas que passem a idéia de bons controladores do orçamento municipal. Nesse aspecto, as candidatas levam vantagem – a mulher sempre controlou o orçamento doméstico e transmite maior confiança. Em cidades importantes, como São Paulo e Santos, as mulheres devem ganhar.
Nesse contexto, surge um novo conceito de marketing político. Se o eleitor está cada vez mais desconfiado e de olhos abertos, urge a necessidade de discursos pontuais e substantivos. Chega ao fim o denominado ‘‘candidato sabonete’’, apresentado como um verdadeiro produto para o consumo de massa e cuja imagem era construída via efeitos cosméticos e publicitários.
O bom candidato, hoje, apóia-se nas expectativas da sociedade. Os grandes veículos de comunicação eleitoral – televisão, rádio e outdoor – sozinhos, não ganham campanhas. Para ganhá-las, são necessários, principalmente, discursos e propostas condizentes com os novos anseios do povo.
Por último, vale indicar quais as ferramentas mais importantes para essa campanha. Os filmes de propaganda eleitoral de 30 segundos, permitidos desde as últimas eleições na programação dos candidatos, funcionam como anúncios de produtos. É mais fácil para o eleitor assisti-los, pois a mensagem é rápida, inteligente e suave para o telespectador. O candidato consegue passar de maneira mais palatável o seu programa e o seu ideário. Outros veículos serão importantes.
A influência da Internet será maior do que nas eleições passadas, mas ela não constitui, ainda, um veículo fundamental. Os candidatos deverão receber muitas visitas nos sites. Nada substitui o contato pessoal do candidato com seu eleitorado. Diante da crise social, da desconfiança e da descrença, as pessoas sentem necesssidade de ver seus candidatos de perto. Os políticos devem sair às ruas e andar pelas casas e pelos bairros. Mais importante do que os grandes comícios, serão os pequenos encontros, como cafés da manhã, visitas, mutirões e carreatas.
A campanha deste ano será um exercício de reaprendizagem para os velhos políticos e uma oportunidade de ouro para os candidatos iniciantes colocarem seu ideário. Será o maior teste da democracia brasileira: quase 18 mil candidatos a prefeito e 300 mil candidatos a vereador. Com uma grande diferença sobre a campanha anterior: candidatos ‘‘muito ensaboados’’ tomarão um banho de indignação. Candidato não é sabonete.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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