Canções românticas versus canções vulgares
O uso de boas letras de música como estratégia de ensino na educação escolar contribui para o desenvolvimento dos alunos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de setembro de 2025
O uso de boas letras de música como estratégia de ensino na educação escolar contribui para o desenvolvimento dos alunos
Mary Neide Figueiró 
Há tempos me encanto com a forma como muitos compositores e compositoras de letras de música referem-se ao sexo. Ao abordarem, direta ou indiretamente, a relação sexual, apresentam-na de maneira romântica, sensual e, muitas vezes, de forma poética. Fazer amor é a denominação mais presente. Esse meu fascínio se intensificou ao ouvir músicas cuja letra usa palavras vulgares, pornográficas, que carregam a intenção de instigar a prática do sexo fugaz, valorizando mais a performance do que a interação amorosa. Penso que essa vulgaridade traz implicações negativas, pois tais músicas são ouvidas e, muitas vezes, cantadas por adolescentes, que, em sua maioria, são carentes de formação crítica e autônoma.
A psicanalista e jornalista brasileira, Maria Rita Kehl, afirma, em um de seus livros, que “A sexualidade circula freneticamente em palavras e imagens, como a mais universal das mercadorias”, de modo que hoje, “o falatório surpreenderia o próprio Freud”.
Algumas músicas falam da relação sexual por meio de analogias com o fogo, a lenha, um eclipse, uma viagem até a lua etc.. Outras falam de forma direta, assim como Joana em Amanhã Talvez, que valoriza a exclusividade, ao dizer: “Faz, que desse jeito só você sabe fazer. Olhos nos olhos, tanta vida pra viver. Diz a frase certa, só você sabe me abrir. É só assim que eu consigo descobrir como é gostoso me entregar e te sentir”. Na música intitulada Sábado, José Augusto também valoriza a exclusividade ao fala do sexo de maneira a demonstrar a força de um encontro sexual que deixa marcas, não existindo outro igual. “Eu já tentei, fiz de tudo pra te esquecer. Eu até encontrei prazer. Mas ninguém faz como você. Quanta ilusão, ir pra cama sem emoção. Se o vazio que vem depois só me faz lembrar de você.”
Várias canções reforçam a ideia de um algo mais, para além do momento da relação sexual. Como exemplo, temos a música Além da Cama, cantada por Alcione. “Eu te quero além da cama. Eu te amo de verdade.” Em outro exemplo, a música Preciso Ser Amado, de Zezé de Camargo e Luciano, diz: “Não preciso de amor. Eu preciso é ser amado. O que eu quero é ter alguém que me queira amar também e fique do meu lado”. Em outro ponto: “Eu não faço amor por fazer. Tem que ser muito mais que prazer. Tem que ser todo dia. Sem cama vazia no amanhecer”.
Fábio Júnior, em O Que É Que Há?, nos leva a pensar nos casais que vivem juntos por um longo período, em situação de casamento ou de simples parceria, e que, por motivos variados, muitas vezes por cansaço ou por falta de determinação, se acomodam e mantêm relação sexual esporadicamente, deixando vazar pelos dedos as oportunidades de fazer sexo enquanto ainda se têm boa saúde e energia física. Desconsideram, desse modo, os benefícios do sexo com qualidade para o bem estar emocional, para a aproximação do casal e para a saúde física e mental. Assim diz um trecho: “Por que que há tanto tempo você não procura meu ombro? Por que será? Por que será que esse fogo não queima o que tem pra queimar? Que a gente não ama o que tem pra se amar?”
Chitãozinho e Xororó, em A Mais Bonita Das Noites, assim definem a noite em que acontece a mútua entrega, em que o amor se concretiza em uma relação sexual. Em As Dores Do Mundo, Hyldon afirma que, em um encontro sexual acompanhado do amor, as dificuldades, os sofrimentos e as preocupações com o passado ou com o futuro, naquele momento, são apagadas. Diz a letra que o encontro nos transporta para além da realidade, para o momento presente, onde tudo é bom e bonito.
É possível crer que tenha sido a partir da década de 1970 que as canções começaram a falar do sexo direta ou indiretamente e de forma romântica, contribuindo para uma visão positiva da sexualidade. Centenas de outras canções poderiam aqui ser consideradas. Roberto Carlos, em Cavalgada, leva às alturas a imaginação: “Vou cavalgar por toda a noite. Por uma estrada colorida. Usar meus beijos como açoite. E a minha mão mais atrevida”. O uso de boas letras de música como estratégia de ensino na educação escolar contribui para desenvolver a criticidade, a responsabilidade e, sobretudo, uma visão positiva do sexo, em uma relação em que há respeito mútuo e se considera que não é não.
Mary Neide Figueiró é psicóloga, especialista em educação sexual


