Estudos mundo afora atestam: de cada nove mulheres que nascem no século 21, uma terá câncer de mama. Para milhares que sobreviveram à doença, uma pergunta ecoa: seria a reconstrução de mama uma saída? Para o cirurgião plástico Ricardo Strang, a resposta é positiva.

Em entrevista à FOLHA, Strang, que é o encarregado do serviço de Cirurgia Plástica do Hospital do Câncer de Londrina, cita a reconstrução mamária como parte do tratamento. ''Quando a paciente toma conhecimento de que é possível reconstruir, ela aceita melhor a necessidade da mastectomia.''

A quais fatores o senhor atribui a crescente busca das mulheres pela reconstrução de mama?
Trata-se de uma questão ligada ao consciente coletivo das pessoas. A mama é o primeiro lugar que você encontra quando chega ao mundo, que dá calor, proteção, alimento. Num contexto histórico, várias culturas, quando preconizavam a fertilidade, evidenciavam a mama, em imagens e retrato. Hoje, a reverência à mama se converte, também, num foco de sensualidade. A sensualidade de uma mulher, atualmente, passa muito mais pela mama do que pela genitália. Diante disso, a mulher que perde uma mama se sente lesada, mutilada. Nenhum órgão externo deixa tantas marcas profundas, se uma vez retirado, quanto a mama. Se analisarmos a questão do equilíbrio, perceberemos que a coluna é das mais prejudicadas, muitas vezes acarretando em dor. A musculatura da coluna tem de trabalhar mais para compensar a diferença de peso. Quando a paciente toma conhecimento de que é possível reconstruir, ela aceita melhor a necessidade da mastectomia (cirurgia para a retirada da mama).

Em estatísticas, os números tendem a crescer?
Em projeções, para 2008, teremos 50 mil casos novos de câncer de mama, na população brasileira. Em dados globais, uma em cada nove mulheres terá câncer de mama. E, como bem sabemos, não há cura para o câncer de mama, apenas prevenção. O que se consegue hoje é uma detecção precoce.

Uma vez detectado o câncer de mama, as mulheres já recorrem a um cirurgião plástico, buscando, após a operação, a reconstrução?
Vai depender do grau de conhecimento da paciente e do médico que indicou a mastectomia. Quando o mastologista detecta um câncer e dá, à paciente, indicação de mastectomia, sempre que possível a reconstrução imediata tem vantagens sobre a reconstrução tardia. O problema é que para colocar isso em prática faltam recursos.

Em Londrina, qual a real situação?
Comecei a trabalhar em Londrina há quase oito anos. Assim que cheguei, assumi o serviço de cirurgia plástica do Hospital do Câncer, onde comecei a fazer a reconstrução mamária. Hoje, posso dizer que mais de 80% da minha clientela recorre a meus serviços para fazer a reconstrução mamária. Tentamos reproduzir, no Hospital do Câncer, aquilo que fazemos via particular. Só não temos métodos e espaço suficientes para dar conta dessa demanda. No Hospital do Câncer, temos, em média, de seis a oito mastectomias por semana. Fora, não saberia dizer. Eu tenho condições de fazer, com minha equipe, uma cirurgia de grande/médio porte por semana. Para a reconstrução mamária, são necessários de dois a três dias cirúrgicos. Construir é sempre mais complicado que destruir. No Instituto do Câncer, pretendemos, eu e um colega, selecionar casos em que possamos reconstruir, através do expansor, que é uma técnica rápida e ocupa pouco tempo de sala cirúrgica. Quando tiver indicação de pacientes para essa técnica, gostaríamos de utilizá-la.

Quais as técnicas mais utilizadas?
A colocação de prótese, debaixo da musculatura peitoral, ou um expansor com uma mama maior, para quem tem boa musculatura; combinação de retalhos, com retalhos do músculo grande dorsal - o músculo das costas -, que tem uma conformação excelente para cobrir uma prótese e ainda pode trazer uma pele junto -, ou um retalho do abdômen, em que você faz uma reestruturação do abdômen da paciente, praticamente como se fosse uma plástica de abdômen, são as três linhas de conduta mais adotadas. A última é a cirurgia mais sofisticada, bastante interessante. É importante ressaltar que fazemos, em Londrina, as técnicas utilizadas em todo o mundo.

O que o senhor considera essencial, para se obter êxito?
Precisamos ter uma equipe afinada de Oncologia e Mastologia, que chamamos de coordenação multidisciplinar. O importante é um saber o que o outro vai fazer, para chegarmos a um acordo, priorizando sempre o melhor resultado.

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