Domingo passado, durante concorrido almoço no Recinto José Garcia Molina, tomou posse o novo presidente da Sociedade Rural do Paraná, Francisco Luiz Prando Galli. Naquela ocasião não foi difícil perceber o perfil desse engenheiro agrônomo que se coloca como liderança, e não apenas como dirigente de uma das entidades mais importantes do Paraná. E os traços desse perfil emergiram através de um gesto democrático, do discurso proferido e da iniciativa realizada.
O gesto democrático aconteceu quando Francisco Galli, antes de iniciar sua fala, chamou para tomar assento na mesa de honra seu oponente durante a campanha para a presidência da Sociedade Rural, Octávio Cesário Pereira Neto. Essa atitude, além de elegante lição de democracia que muitos políticos deveriam aprender, revestiu-se de um nítido simbolismo de união agropecuarista. Uma união sem dúvida necessária para a superação dos problemas e dificuldades pelos quais passa atualmente esta classe diante de questões técnicas como políticas agrícolas, ou político-ideológicas como as invasões praticadas pelo MST.
Quanto ao discurso feito de improviso, acentuou o desejo do presidente da Sociedade Rural de fortalecer a entidade ampliando o número de associados, inclusive dos pequenos produtores, oferecer-lhes mais atividades, mais participação na entidade e, sobretudo, de dotar a classe de maior representatividade diante dos poderes constituídos.
No discurso ficou claro que a Sociedade Rural necessita de apoio governamental, tanto a nível federal quanto estadual. Entretanto, Francisco Galli descartou qualquer tipo de subserviência para atingir os objetivos traçados por sua gestão. Este espírito de independência e dignidade foi também salientado do discurso do presidente em exercício, Luiz Roberto Neme, quando este transmitiu o cargo a seu sucessor.
Finalmente, a iniciativa realizada foi aquela mencionada por Galli durante seu discurso de posse, e diz respeito à carta entregue ao presidente Fernando Henrique durante sua vinda a Rolândia, por intermédio do deputado Luiz Carlos Hauly. Esta carta, publicada na seção ‘‘O leitor escreve’’ da Folha do dia 23 deste, impressiona pelas reivindicações e o pedido de abertura de ‘‘um eficiente canal de comunicação’’ com o presidente da República para ‘‘poder informar, ajudar e transmitir a verdade do setor agropecuário’’.
Corajosamente são expostos neste documento, entre outros aspectos, a insegurança no campo, a inconformidade com a remuneração não condizente com a produção, a distância entre o discurso correto do presidente Fernando Henrique Cardoso e as ações contrárias a esse discurso por parte dos seus auxiliares. É também enfatizado o fato de os agropecuarista viverem ‘‘como reféns de um movimento político e terem chegado a um ponto ‘‘em que toda a atividade agropecuária é vista como uma atividade criminosa’’
Naturalmente, o movimento político a que a carta se refere é o MST, apontado de forma equivocada pelas chamadas esquerdas de movimento social. Na verdade, o máximo que se pode dizer é que, se a reforma agrária diz respeito à questão social, sua condição por fanáticos tipo João Pedro Stédile a converteu num processo que visa unicamente alçar ao poder representantes de um tipo de mentalidade ultrapassada.
Tanto isso é verdade, que o MST, no momento que atenuou as invasões rareou os saques e não se fala mais na seca do Nordeste. É que o MST não deve agora ultrapassar a campanha de seus candidatos Lula e Brizola que, inclusive, firmaram um pacto de silêncio para não assustar os eleitores. Mas as lideranças do MST estão apenas dando uma trégua eleitoral, e dizem que uma nova onda de invasões de propriedades rurais está prevista para fins de julho.
Além desse problema político é preciso lembrar, conforme o ‘‘Jornal da Tarde’’ do último dia 15, que ‘‘um incentivo tecnológico no Brasil, que passou da oitava para a sexta posição no ranking mundial dos principais exportadores agrícolas em 97, poderia, de acordo com os empresários da agroindústria, dobrar a produção em setores como leite, milho e algodão. Com tecnologia, crédito e redução de tributos, estima-se que o total de exportações agrícolas pode crescer US$ 10 bilhões - dos atuais US$ 13 bilhões para US$ 23 bilhões’’.
O chamado custo Brasil, que inclui o excesso de tributos e o desperdício de produtos, também desanima os agricultores. Com ou sem tecnologia, o preço do milho, por exemplo, fica onerado 23% com o custo do frete interno. O aceitável, segundo o professor de agronomia da USP, Marcos Jank, é de no máximo 10%. Ele afirma que com transporte, estocagem e postos gasta-se 25% do valor do produto’’.
Todas essas questões estão realmente demandando um canal direto de comunicação entre os agropecuaristas e o presidente Fernando Henrique. E tomara que Francisco Galli e sua diretoria consigam esse intento. Afinal, o setor agropecuário é vital não só para quem nele produz mas para toda a sociedade brasileira.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga

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