Canadá: compostura e respeito
É seguramente das mais justas a reação ao mesmo tempo de revolta e desalento com a medida canadense de suspender a importação de carne brasileira, sob a acusação, inteiramente injustificada, de que em nosso rebanho estaria existindo, como epidemia, o mal da vaca louca.
Tem o Brasil a possibilidade de retaliar o Canadá? Antes de mais nada não nos parece que uma política de mera retaliação seja boa doutrina. Mas não é possível aceitar, complacentemente, que só na Bíblia Davi derrotou o gigante Golias, quando, em instantes os mais diversos e não obrigatoriamente bíblicos a consciência mesma do mundo civilizado se colocou ao lado de quem, Davi, embora, lutava e luta em defesa de direitos inegáveis. Lícitos e legítimos.
Ano passado, nosso comércio com o Canadá ultrapassou US$ 1,5 bilhão. Importamos de lá mercadorias no valor de US$ 1 bilhão e exportamos US$ 566 milhões. Nessa nossa pauta de exportação encontramos manufaturados, como calçados, motores, ferro gusa, peças para veículos, e, também, açúcar, minério de ferro, por aí.
Gostaríamos, no entanto, de ir mais adiante. Nossa Amazônia e a Região Centro-Oeste estão entre as províncias minerais mais ricas do mundo. É possível que nem o Brasil conheça a extensão e a exata dimensão dessas riquezas. Mas estamos certos de que os satélites americanos já mapearam todas elas, num trabalho sistemático que já dura anos.
Não por acaso. Aliás, missões ditas assistenciais invadem aquelas áreas, fingem combater o abate intensivo de madeiras, fingem dar assistência médico-social aos indígenas, mas, no fundo, no fundo, buscam concessões e mais concessões para ali explorar nossas riquezas.
Essa exploração tem vulto. Já são 60.720 lotes de terra brasileira cujo subsolo vem sendo explorado, tudo totalizando, em números bem exatos, 1.624.555 km, o que representa 19% do território nacional. Ou, para melhor exemplificar, toda a área da Alemanha, França, Inglaterra, Espanha e Portugal reunidas.
Pois no meio dessa exploração avulta uma empresa de forte ascendência canadense, a Brascan, que, juntamente com a British Petroleum e mais uma centena de subsidiárias acaba respondendo por 48% de toda essa exploração, sendo, como o é, presença marcante em praticamente todos os Estados da Região Norte Centro-Oeste, com a exceção, possivelmente, do Tocantins.
E são minérios e minerais de alto valor estratégico e, em alguns casos, o Brasil estando como detentor das maiores reservas, das maiores minas, das maiores províncias extrativistas. Ali se encontram petróleo, bauxita (o minério do alumínio), manganês e ferro, ouro, diamantes, calcário, caulim, cassiterita (minério do estanho), tungstênio e até mesmo urânio.
Quem acompanha de perto essa questão sabe bem o que se faz por detrás dos panos, as pressões exercidas sobre autoridades, desde as municipais até as federais; as propinas, a compra de pareceres e opiniões, enfim, todo um submundo que gira em torno dessas riquezas que, no mais das vezes, deixam nossas fronteiras de mão beijada para produzir gordos lucros mundo afora.
Não seria o instante de revermos pelo menos parte desses contratos de concessão de lavra, de exploração de tantos minerais? Não seria o caso de fazê-los existir dentro, absolutamente dentro dos cânones legais, desprezadas renúncias fiscais excessivas, condenando as elisões e a sonegação fiscal?
Pois aí está, sem sombra de dúvida, um respaldo de que se pode valer o Brasil para impor sua vontade, para fazer com que prevaleçam, nessa selvageria do comércio internacional, um mínimo de compostura e respeito, sem o que a prevalência absoluta será a da lei das selvas.
- RUBENS BUENO é deputado federal e presidente do PPS-PR
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