Fernando José Dias da Silva
É um problemão. Os Estados Unidos já alcançaram o pleno emprego há algum tempo. Mas os empregados, cada vez mais, aumentam o número de horas de trabalho e trocam de emprego. Na França, se as coisas derem certo, o pleno emprego será alcançado em 2005, 2006. Mas também é terrível porque o perigo de o subemprego se alastrar é enorme.
Nós aqui não. Não existem essas dificuldades, porque não existem perspectivas. A situação é negra. Mas, em compensação, não há preocupação com essas dificuldades secundárias acarretadas por aqueles que já chegaram ou estão buscando o pleno emprego. Esse não é assunto sério para ser tratado numa hora destas.
É verdade que as gavetas da burocracia nacional estão cheias de projetos para acabar com essa história. Mas o entusiasmo fica só nos discursos, o que pelo menos assegura colocação para essa turma. Mas, efetivamente, existe um vácuo no setor. Normalmente, os ministros do Trabalho vêm das classes dirigentes do empresariado e quando acontece de pinçarem um trabalhador para o cargo o desastre é maior ainda.
Isso é comum. Novidade é a sofisticação nas maldades que são lançadas no ar para apavorar esse pessoal que ganha tão bem e tem uma qualidade de vida exemplar. A última foi desvincular o salário mínimo dos benefícios da Previdência. Assim o governo poderia dar aumentos maiores para aqueles que estão na ativa enquanto os aposentados e pensionistas poderiam esperar uma próxima oportunidade. Isso é feio. Fazer mal a velhinho não tem mais graça, nem em piada de humor negro. Depois, voltaram atrás. Houve desmentidos. Mas que a idéia existe, existe e vai ficar circulando por aí até encontrar uma brecha.
Outra boa é mexer também com o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e com o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) sob a alegação que eles não são bem administrados. Esses fundos bem que poderiam ter maior rentabilidade na mão de particulares – afirmam os burocratas com olhares rútilos de concupiscência.
Parece brincadeira, mas nenhuma dessas medidas que são engendradas nos laboratórios dos porões palacianos são do bem, sempre são do mal. Mas a idéia mãe desses bruxos sem alma é retirar o máximo possível de direitos do trabalhador para, segundo eles, facilitar o aumento de vagas, a criação de empregos e aliviar a carga que onera o empresariado.
É estranho porque muito pouca gente tem alguma espécie de proteção social ou trabalhista. Aqui nós vamos pedir a ajuda do professor Márcio Pochmann, pesquisador do centro de Estudos sindicais e de Economia do Trabalho, da Unicamp. Segundo o professor, só 22,5 milhões de trabalhadores têm alguma espécie de colchão de proteção social ou trabalhista. Enquanto a População Economicamente Ativa (PEA) é de 76,5 milhões. Isso quer dizer que de cada três assalariados apenas um tem registro formal.
Outro dado levantado pelo professor Pochmann diz que, desses trabalhadores com carteira, cerca de 8,5 milhões rompem o contrato anualmente. Uma das mais altas taxas de demissão do mundo. Nos Estados Unidos, que é caracterizado pela flexibilidade do mercado de trabalho, a taxa de demissão anual está em 20%, a metade da brasileira.
Além disso o Brasil é considerado um dos campeões em desigualdade de salários etc, etc, etc. Então só se pode concluir que é por maldade mesmo que se pensam nessas coisas.

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