Campanha subliminar
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de maio de 1997
Fernando José da Silva 
É uma verdadeira esculhambação. É preciso investigar a fundo e tomar providências sérias, porque senão todo um estilo, uma prática antiga de fazer política pode ser totalmente desmoralizada. É uma campanha subliminar como está acontecendo com o peru. Primeiro colocaram o pobre galináceo em um anúncio de camisinha. Agora colocam o bicho como ministro, de gravata e tudo, dizendo que é ave de muito papo e pouca ação.
Mas, voltando a vaca fria: é que prometem um tanto e só pagam metade? Dos 200 que foram entregues para os 400 dinheiros que foram prometidos existe uma diferença muito grande. E onde fica a seriedade dos acordos de fio de barba? A responsabilidade das pessoas fica comprometida com promessas descumpridas assim. A velha prática fica desmoralizada.
O mais grave é que com toda essa publicidade da compra de votos para fazer passar a emenda da reeleição (coisa que não deveria acontecer de jeito nenhum, porque conturba o mercado) os que não foram assediados, os que não foram procurados, não receberam propostas vão ficar indignados.
Isso pode criar guerra interna dentro da Câmara Federal, porque se criou dois tipos de deputados. Os que valem um subornozinho, os que merecem ser comprados. E os que não valem nem 200 mil reais. Não prestam para nada. Nem para receber um troco para votar a favor da reeleição.
E vai ser difícil tirar esse segundo time de parlamentares da crise psicológica e existencial que eles já devem estar mergulhando. Aí só há duas saídas. Uma é aumentar o valor do troco para que eles recobrem rapidamente a auto-estima. A segunda saída é o esquecimento. Fazer com que eles esqueçam o ocorrido. Se o assunto começar a ser ventilado, é melhor assobiar um samba do Noel, de preferência Onde Anda a Honestidade ou então levar o pessoal para andar na Roda Gigante da Disney World. Coitados.
Uma coisa que não adianta é subir em cima da mesa e ficar berrando que ninguém tem nada a ver com isso. A denúncia da Folha de S. Paulo sobre a compra de votos para passar o projeto da reeleição carimbou o processo. Não adianta.
A revelação da compra de deputados por 200 dinheiros pode ser fato isolado. Pode não ter nenhuma relação com o Palácio do Planalto. Pode até ser uma história infeliz. Mas a reeleição de Fernando Henrique Cardoso está respingada por material menos nobre do qual se faz esse tipo de acerto.
O governo reagiu rapidamente. Está fingindo que não é com ele. Mas o mal está instalado em todos os corredores. Em todos os gabinetes de Brasília. A imagem de tranquilidade é apenas aparente. Sabe-se que muita gente perdeu o sono. Está preocupadíssima com os desdobramentos do caso principalmente, com novos fatos.
O presidente Fernando Henrique vinha tendo que enfrentar uma série de crises nesses últimos tempos. Mas essa do suborno para passar a emenda da reeleição é mega. Seguramente é a mais grave delas. coisa besta, sô.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo


