Campanha iniciada
Embora este seja um ano não eleitoral, o que sempre oferece esperanças de uma ação mais efetiva do Legislativo, a verdade é que o Brasil já está vivendo o clima das eleições municipais que vão se realizar dentro de pouco mais de um ano. A necessidade de filiação partidária de quem esteja interessado em concorrer ao pleito de 2000, um ano antes das eleições, está provocando a tradicional corrida dos políticos aos partidos. Muitos estão mudando de legenda, outros, sem partidos, procuram se colocar, sem o que não podem concorrer ao pleito de 2000. O imenso e complicado xadrez político do período pré-eleitoral começa a se movimentar. O fato de os prefeitos em exercício poderem se candidatar a um novo mandato (a não ser que haja alguma modificação de última hora) estabelece uma situação de fato na questão mesma da própria campanha eleitoral. Com efeito, segundo a lei, os candidatos só podem começar a fazer a campanha depois que seus nomes sejam aprovados em convenção, o que só acontece no primeiro semestre do próximo ano. Todavia, como candidatos naturais à própria sucessão, os atuais prefeitos estão, naturalmente, trabalhando por suas respectivas reeleições. É algo quase inevitável. E seus adversários, por seu turno, especialmente se detentores de algum mandato, têm meios para colocar seus nomes em evidência, mesmo sem ferir, ao menos frontalmente, a legislação em vigor.
A agitação política não chega naturalmente aos níveis de uma campanha. Entretanto, o clima já começa a se delinear. Até mesmo ações legislativas, como a aprovação pelo Senado do projeto de renegociação da dívida dos municípios, já se inserem no quadro global. Fica bem clara a preocupação entre os políticos no sentido de ‘agradar’ aos prefeitos, ainda mais quando a maioria deles é, pelo menos neste momento, favorita para o pleito de 2000. Igualmente, a interferência direta do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, tirando do texto a prerrogativa de o Senado suspender os acordos caso ocorra descumprimento de normas, dá a impressão de uma jogada do Executivo visando diminuir a força do Congresso no importante terreno da pugna municipal.
O jogo democrático é este: eleições que se sucedem e os políticos naturalmente pensando nas próximas disputas. Nos Estados Unidos, onde a reeleição presidencial existe praticamente desde o início da História do país, diz-se que um presidente eleito começa a campanha pela reeleição assim que toma posse. No Brasil, com a reeleição apenas começando, as coisas não se mostram diferentes. Na semana passada, um dos aliados do presidente Fernando Henrique Cardoso no Congresso o acusou de ter se preocupado mais com a emenda da reeleição do que com as reformas estruturais. Era a resposta à queixa do presidente à demora na aprovação pelo Legislativo das medidas propostas no plano de estabilização da economia.
A reeleição criou uma nova realidade política para o Brasil. Mas não mudou a essência: uma vez concluída uma eleição, as preocupações se voltam para a próxima, com as manobras e ajustes dos políticos. O que é ruim no quadro é quando a questão eleitoral se sobrepõe aos demais interesses. Os brasileiros têm sentido isto a cada dois anos, quando toda a atividade política se restringe, enquanto os representantes eleitos param para fazer outra campanha. Este é o fato negativo, a questão que realmente provoca reações de crítica aos políticos e aos partidos. Pensar nas eleições municipais que vão ocorrer dentro de um ano é normal. Deixar o País parado por todo este ano, condicionar decisões ao jogo eleitoreiro, é outra coisa. Pelo bem do Brasil, espera-se que os políticos percebam a distinção.

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