Essa história de ser candidato e presidente ao mesmo tempo pode provocar alguma confusão. Como é que dá para saber quando o candidato é presidente e quando o presidente é candidato? De manhã em frente ao espelho deve surgir a dúvida: ‘‘Como é que eu vou me vestir?’’. Aliás nesses tempos de modernidade, como será a indumentária do candidato e do presidente?
A do presidente é mais conhecida. No início do mandato ainda era meio capenga. Aqueles paletós muito claros e aquelas calças muito escuras não davam o balanço, o equilíbrio necessário à liturgia do cargo. Depois, FHC mudou de alfaiate e as coisas entraram nos eixos. Ternos mais alegres, por assim dizer, nos compromissos pela manhã e nos eventos mais informais. E roupas mais sóbrias no palácio ou em visitas protocolares.
Mas a roupa do candidato é uma incógnita. Claro que não será a mesma de outras campanhas. Nada daquelas jaquetas de couro da disputa para o Senado e para a prefeitura paulistana. FHC não é desses que se fantasia de piloto de avião de caça nem bota roupa camuflada. Como candidato, ele também não pode se vestir como quem vai a um ‘‘garden-party’’.
A questão da postura também é fundamental. Para o presidente, uma atitude contida. Aquele tradicional aceno com a mão direita, o braço fazendo apenas um pequeno movimento na altura da cabeça. E um sorriso, apenas um sorriso. Para o candidato, gestos mais efusivos. Não ao ponto de parecer um torcedor do Brasil. Basta mostrar o entusiasmo de quem está com vontade de vencer.
Perigoso é num dia de correria trocarem as bolas. FHC aparecer de mangas curtas e tênis na posse de um ministro ou na recepção de um estadista estrangeiro e de terno azul-marinho e gravata em Piancó (PB), para subir num palanque improvisado de uma carroceria de caminhão.
O candidato do outro lado também entrou nessa onda de mostrar alguma coisa através do que veste e do que faz. Lula não tira mais o terno. Não quer ser mais identificado como o metalúrgico que agitava a tigrada no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo. Por isso ataca de terno. Mas Lula tem uma vantagem: não é candidato e presidente ao mesmo tempo. Suas chances de entrar em crise de identidade são mais remotas.
No mais, vai ser tudo igual. Os dois vão posar com criancinhas sorridentes. Vão prometer acabar com o desemprego. Melhorar a saúde, a educação, a vida nas cidades. Todas essas promessas que são feitas desde o descobrimento.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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