''Economia e Vida - Não se pode servir a Deus e ao dinheiro.'' O tema da Campanha da Fraternidade deste ano requer um esforço didático para evitar maniqueísmo na interpretação. A intenção das igrejas cristãs (a campanha é ecumênica) é clara, mas a frase bem que poderia ter uma cunho mais apreciativo com relação ao dinheiro. Ela não é excludente, nem preconceituosa. No entanto, quando preconiza que ''não se pode'' servir a Deus e ao dinheiro, obviamente que, metaforização à parte, quer induzir o cristão a ''excluir'' o dinheiro.

Em um país no qual a infidelidade religiosa não costuma provocar tremores paroquianos, é de se supor que a prosperidade e o lucro - fruto do trabalho honesto - não denotem obras do profano. E o dinheiro que permeia essas relações é instrumento do qual não se pode prescindir. Colocá-lo, agora, no terreno do antagonismo, ainda mais quando é a fé que está no lado oposto, realmente pode não ser a construção de frase mais eficaz para uma mensagem que a Igreja quer levar aos povos. E todos os cristãos que precisam comprar leite no dia seguinte estarão pedindo a Deus que tudo não passe de um pluralismo semântico e uma necessária reflexão.

Convém atribuir à Campanha um recado mais compatível, ao interpretar que o dinheiro que se exclui é aquele do ganho fácil e ilícito; ou aquele que exigiu excessivo sacrifício humano, na exploração do homem pelo homem. E tem ainda aquele dinheiro cujo gasto é faustoso e abusa da prodigalidade, enquanto milhares de semelhantes passam privações. Nesse desperdício, a elite é useira e vezeira. Outro é o do péssimo gosto do consumismo, a falta de parcimônia, o desperdício, a luxuria. Este é o apelo educativo da Campanha.

Aliás, não parece ser outra a interpretação do Arcebispo de Londrina. O comentário de dom Orlando Brandes à repórter Marian Trigueiros clareia melhor os objetivos da campanha ao citar, com críticas, a recente ajuda financeira aos grandes bancos. Foram 19 trilhões de dólares - lembra. Por que não destinar 1% disso para países que precisam - questiona o arcebispo. É esse o dinheiro a que se refere o mote da Campanha da Fraternidade. Ainda bem porque o outro é benfazejo. É Bento.

Na carona da observação da autoridade religiosa - e reduzindo o foco para uma questão doméstica (os ''investimentos'' no filme sobre a trajetória do Presidente), caberia perguntar: Por que não destinar parte do dinheiro para os muitos filhos do Brasil que carecem de condições mínimas?

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