Malgrado a oposição e críticas variadas, inclusive internas, a Comissão Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propõe todos os anos à sociedade brasileira e aos católicos, especialmente, um tema por demais oportuno e provocativo no sentido pleno do termo. Desde 1964 que a Campanha da Fraternidade é um patrimônio cultural e espiritual da Igreja Católica deste país, fazendo um enorme diferencial sobre o resto do mundo.

Trata-se de um programa amplo, profundo, específico e cirúrgico acerca das mazelas que perturbam o tecido social brasileiro e que na ótica da Igreja é parte mais do que integrante do processo de conversão tão apregoado na Quaresma, quando ocorre essa campanha. Ou seja, não dá para ser “bonzinho” com Deus, olvidando o sofrimento dos concidadãos ou ignorando propositadamente as situações delicadas que eles enfrentam.

Ao longo destes sessenta e dois anos, desfilaram pelas várias dioceses e paróquias, inúmeros temas interpelativos, principalmente a partir dos anos oitenta: a terra, a água, a mulher, a Amazônia, o negro, a fome, as migrações, a violência, a educação, o menor, os excluídos, encarcerados etc. etc. Como facilmente se percebe, a Igreja Católica está atenta ao mundo real, ao chão deste Brasil e conclama os seus fiéis a voltarem o olhar para estas realidades que clamam por mudanças. E mudar é exatamente o melhor sinônimo para conversão!

Este ano, a CNBB trouxe-nos o tema da Moradia. Dispensa comentários quanto à oportunidade! 26 milhões de brasileiros vivem em casas tão degradadas que o próprio termo fica comprometido! Unidades habitacionais inadequadas em áreas de risco ambiental, sem infraestrutura mínima ou distantes de equipamentos públicos essenciais como escolas, unidades de saúde e transporte coletivo.

Ocupações irregulares, moradias improvisadas, casas sem saneamento básico, compõem o cotidiano de milhões de famílias. Ora, a moradia, não é um luxo, mas uma necessidade essencial para a vida e para a dignidade da pessoa humana. Um direito pétreo garantido pela Constituição. “Quem casa quer casa”, se diz na minha terra! Se as raposas têm tocas e os pássaros ninhos, não pode nenhum ser humano ficar desabrigado! Uma casa é um lar. Um lar é vida. Vida que se multiplica e se transforma. Crianças e idosos que possuem um teto para se esconder e (com)viver!

Temos ainda o registro de trezentas mil pessoas em situação de rua. Um número que cresceu muito nos últimos dez anos e que contrasta com outra informação: O Brasil possui 11,4 milhões de imóveis vazios, muitos deles localizados em áreas urbanas consolidadas! Esta contradição está longe de ser uma novidade, num país que vê recordes anuais de exportação de grãos e ainda convive com milhões passando fome! Moradia não é apenas falta de espaço! Está sim, relacionada com a desigualdade social, especulação imobiliária e falta de interesse do poder público.

Falta de uma moradia digna implica em baixa estima, bicos de trabalho informal e compromete o acesso à saúde e à educação. Quem mora instalado numa casa confortável, não poderá jamais imaginar as implicações sociais da ausência de um teto digno!

A Igreja Católica quer que olhemos a realidade, a julguemos à luz da Bíblia e arregacemos as mangas para mudá-la. Não dá para não enxergarmos e muito menos, para vivermos a nossa religiosidade de forma amorfa, inerte e omissa. A apresentação dos dados reais do problema visa nos desinstalar e incomodar. A sequência, depende da consciência de cada um. Mais uma vez a CNBB acertou em cheio com o tema deste ano, a Moradia!

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina

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