CAMPANHA DA FRATERNIDADE - Corrupção colabora com a violência
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de janeiro de 2009
Herika Fondazzi<br>Reportagem Local 
Realizada desde 1964 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Campanha da Fraternidade já foi responsável por mudanças no comportamento e até nas leis do país.
Para 2009, o tema será A Fraternidade e Segurança Pública, com o lema A Paz é Fruto da Justiça. O secretário executivo nacional da Campanha da Fraternidade, padre José Adalberto Vanzella, conversou com a FOLHA sobre os motivos que levaram a Igreja a escolher o tema e quais os objetivos da campanha.
Quais são os objetivos específicos da Campanha para esse ano?
Queremos suscitar o debate sobre segurança pública e contribuir para a construção de uma cultura de paz nas pessoas, na família, na comunidade e na sociedade. Vemos que o brasileiro se mobiliza para Carnaval, Copa do Mundo, mas não se mobiliza para resolver problemas sérios. Precisamos mudar isso.
E quais serão as frentes a que a Igreja se dedicará?
A primeira é desenvolver nas pessoas a capacidade de perceber a violência na sua realidade local. Vemos muito a violência em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Salvador e pensamos que os problemas nas comunidades fora dos grandes centros não são importantes. A segunda é a gravidade dos crimes contra a ética, economia e gestões públicas, porque existe uma certa tolerância da sociedade com esse tipo de crime. A impunidade pode ser vista em frase do tipo ''rouba mas faz''.
A Igreja considera o brasileiro um povo indiferente aos políticos?
O problema é que não existe uma grande consciência política porque vivemos numa sociedade muito individualista e subjetivista. Trata-se de uma questão de mentalidade difícil de trabalhar. Existem algumas regiões do país onde as pessoas são mais politizadas, como no Norte.®MDBO¯®MDNM¯ Lá as pessoas se envolvem para superar os problemas locais. Mas em todas as eleições aparecem os figurões que ganham um monte de votos sem ter propostas concretas.
A campanha pretende também atacar os privilégios que os políticos têm em seus julgamentos. A Igreja entende que essa impunidade gera na população um aumento da violência?
Consequentemente não se consegue oferecer os direitos das pessoas. Quem não tem seu direito satisfeito, luta por ele, muitas vezes de maneira violenta. O problema vem daí também.
Na campanha de 1996, a CNBB fez um abaixo-assinado que ajudou na aprovação de lei que pune a compra de votos. Neste ano haverá campanha pedindo que políticos com ficha suja sejam proibidos de participar de eleições?
Em 1996, o objetivo da Campanha era esse. Para 2009, queremos mais é abrir a discussão sobre o assunto. A CNBB entrou como parceira em um projeto que já existe e que foi criado por outros órgãos e entidades da sociedade para eliminar os fichas sujas das eleições. Já temos mais de 700 mil assinaturas, mas o projeto não é da CNBB. A Campanha da Fraternidade fala sobre esse trabalho e o recolhimento de assinaturas já existe desde agosto do ano passado.
Muitas pessoas não aprovam a participação da Igreja na política. O senhor não acredita que esse lema pode acarretar em novas críticas?
Primeiro é importante lembrar que a gente está sempre envolvido com política, ou porque faz ou porque não faz. Ou você se envolve pela atividade ou pela conivência. Não há como não se envolver em política. Na minha diocese existem padres que são atuantes. Mas existe uma norma que diz que para atuar no legislativo, o padre precisa de dispensa do bispo e se afastar do ministério para trabalhar no executivo.
O senhor acredita que a Igreja ainda tem o poder de despertar a sociedade para a política?
Depende de como a coisa acontece. O tema desse ano foi pedido por 23 dos 27 Estados da Federação. Quando as pessoas pedem a campanha, como aconteceu com essa, o envolvimento é maior e o resultado, muito bom. A Campanha de 1969 foi um marco porque ali se começou falando de ecologia, em uma época em que não se falava sobre o assunto. Temos que caminhar para conseguir o mesmo resultado na segurança pública, mas não iremos resolver o problema com uma campanha.
O senhor consegue ver uma solução para o problema?
Precisamos desenvolver um processo que gere consciência, responsabilidade local e cidadania. Assim acho que vamos conseguir ir muito longe. Para isso precisamos de um trabalho muito grande em educação, tanto no sentido de sociedade quanto de hierarquia de valores, ética.
Uma das propostas da Campanha fala sobre cobrar do governo um investimento maior em educação. Os recursos para 2009 nessa área são os maiores da história, mas parece que não se consegue bons resultados mesmo assim. O que está faltando?
O grande problema é que a educação está voltada para o conteúdo, em ensinar o aluno a passar no vestibular, ser aprovado em concursos e exercer uma profissão. A educação precisa ser voltada para o exercício da cidadania e da responsabilidade social. Mas também temos os problemas de ordem familiar, comunitária, realidades locais.
LEMAS
2009 - A paz é fruto da justiça
2008 - Escolhe, pois, a vida
2007 - Vida e missão neste chão
2006 - Levanta-te, vem para
o meio!
2005 - Felizes os que
promovem a paz
2004 - Água, fonte de vida
2003 - Vida, dignidade e esperança
2002 - Por uma terra sem males
2001 - Vida sim, drogas não!
2000 - Dignidade humana e paz
1999 - Sem trabalho... Por que?


