Campanha combate o trabalho infantil doméstico
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sábado, 26 de abril de 2003
Luka Morais<BR>Reportagem Local 
Sexta-feira, 15h30. Silvana (nome fictício), 13 anos, está com o serviço de casa atrasado. O rodinho caído no banheiro molhado acusa a lavagem que ficou pela metade. Na cozinha, as cadeiras sobre a mesa aguardam a limpeza do chão. Na pia, pratos e talheres a serem lavados. A adolescente que mora com a mãe no Parque Ouro Branco (zona sul de Londrina) é há três anos a dona da casa. ''Minha mãe trabalha como vendedora e quando chega à noite encontra tudo em ordem'', conta a menina orgulhosa.
Enquanto lava a louça, Silvana comenta que desde os 10 anos é responsável pela limpeza da casa que tem quarto, sala, cozinha e banheiro. O trabalho doméstico é encarado com naturalidade já que, segundo ela, outras colegas de escola fazem o mesmo. A diferença está na forma de encarar o futuro. ''Estou estudando e faço o possível para ser boa aluna e não ter que fazer esse serviço na casa dos outros'', diz Silvana, que se dedica a estudar no final da tarde.
Estudante da 8 série, a menina que não gosta de passar roupa e já se queimou duas vezes revela os sonhos: ''Quero ir para universidade. Vou ser médica e ter uma família.'' Ela imagina não ter que executar no futuro as tarefas que hoje lhe roubam as tardes. ''Quero ter uma empregada''.
Assim como Silvana, Marli (nome fictício), 12 anos, acumula há três anos a experiência no trabalho doméstico. A menina, que mora em um bairro de Cambé (13 km a oeste de Londrina), estuda pela manhã (faz a 6 série) e assim que sai da escola trata de dar conta dos afazeres de casa para depois iniciar a tarefa escolar. ''Desde os nove anos eu limpo a casa, lavo minha roupa e da minha irmã'', conta Marli. ''Tem dia que eu fico cansada e não faço a tarefa.''
Marli considera o trabalho doméstico ''chato'', mas não vê motivos para se queixar. ''Minhas amigas também trabalham na casa delas e algumas até cozinham'', comenta a estudante, que cuida da irmã de cinco anos. ''Ela é boazinha''.
Silvana e Marli têm histórias parecidas com as de cerca de 500 mil meninas que, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), trabalham como domésticas no Brasil. Em casas de terceiros, elas cuidam de outras crianças ou têm que limpar, lavar, passar roupa e cozinhar. A lista de tarefas é grande, o que torna a jornada desumana. Apesar de muita gente ainda achar que o trabalho doméstico para elas é como brincar de casinha, a realidade é outra.
O coordenador do projeto Trabalho Infantil Doméstico da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Renato Mendes, destaca que esse tipo de atividade na infância prejudica o desempenho escolar e essas crianças terão poucas chances de se qualificar profissionalmente no futuro. ''O trabalho doméstico apresenta o risco de socialização da menina. Confinada na casa do patrão, por melhor que seja a casa, essa atividade vai gerando a descontextualização da criança do seu mundo'', diz.
Mendes informa que neste domingo, quando se comemora o Dia da Trabalhadora Doméstica, diversas entidades vão lançar uma campanha para erradicar no Brasil esse tipo de atividade durante a infância. A OIT é uma instituição ligada à Organização das Nações Unidas (ONU).
Renato Mendes lembra que o trabalho doméstico é proibido para menores de 16 anos. A partir desta idade, os adolescentes têm os mesmos direitos que o trabalhador adulto: Carteira de Trabalho assinada, salário nunca inferior ao mínimo, repouso semanal remunerado, férias e 13º salário.
Além disso, dentro das casas, crianças e adolescentes estão vulneráveis a acidentes e vários tipos de exploração, como violência física, moral e, inclusive, abuso sexual.
Conforme o representante da OIT, atividades de trabalho envolvendo crianças só podem ser realizadas com o sentido de tarefa de aprendizagem, da socialização com supervisão de um adulto para que não comprometa o desenvolvimento. ''As crianças têm o direito de brincar e de estudar'', resume Mendes. Segundo ele, 12 mil igrejas de todo o País serão chamadas a participar da campanha pela erradicação do trabalho infantil doméstico. ''Elas farão reflexão sobre esse tema durante a celebração das missas do domingo''.


