Ficou claro, pelo noticiário de ontem, que a nomeação do deputado federal eleito Alex Canziani (PTB) para a inexpressiva Secretaria do Trabalho - quem discordar é só tentar relacionar quais foram os importantes projetos desenvolvidos pela tal secretaria - deixou muita gente perplexa, para não dizer outra coisa. Primeiramente, os mais de 74 mil eleitores que, no dia 4 de outubro, depois de meses de lenga-lenga, de discursos, palanques e promessas vãs, deixaram suas casas para depositar seus votos no candidato a deputado federal de sua escolha. Foram promessas de defesa do Norte do Paraná no Congresso, de encaminhar recursos para obras de saneamento, ampliação do aeroporto, de fazer chover e tantas outras que se fossem enumeradas dariam um catatau imenso.
O deputado que participou de uma árdua campanha eleitoral para representar os paranaenses no Congresso não passará um dia sequer em Brasília. Londrina que tinha cinco deputados federais - Paulo Bernardo (PT), Nedson Micheletti (PT), Antonio Ueno (PFL), Luiz Carlos Hauly (PSDB), José Janene (PPB) - elegeu apenas três - Hauly, Janene e Canziani - e vai ficar com apenas dois. A vaga de Canziani será de Ivânio Guerra (PFL) de Pato Branco, Sudoeste do Paraná. Ou seja, e a tão decantada força política que o Norte precisa ter? E as promessas de campanha, de palanque? Quem irá cumprir? Teria sido mais um engodo eleitoral? Apenas jogo de cena? O eleitor comprou gato por lebre? Onde é que dá para reclamar?... Na verdade, a atitude só vem a comprovar que, nem todos, mas uma grande parcela dos nossos políticos adora jogar o jogo do ‘‘eu sozinho’’. Aquele jogo que ‘‘ou eu ganho ou eu ganho’’. O sentido de representação popular vai pelo ralo sem qualquer constrangimento.
Em defesa do deputado eleito há o fato de que ele não é o único. Rafael Greca (PFL) de Curitiba, eleito com mais de 226 mil votos, também segue o mesmo caminho, devendo ocupar um ministério. Antonio Belinati (sem partido) elegeu-se prefeito de Londrina quando ainda era deputado estadual. Os exemplos são muitos.
Nesse jogo do eu sozinho também há que se considerar outra máxima da política: encerrada a contagem dos votos desta eleição começa-se a trabalhar a próxima eleição. Não pára nunca. A reação do prefeito Antonio Belinati e da vice-governadora Emília Belinati (que por sinal é do mesmo partido de Canziani) à nomeação é mais uma confirmação deste jogo. É inegável que o poder de fogo da família Belinati aumentou muito nesta campanha com a eleição do jovem Antonio Carlos, segundo deputado mais votado do Paraná - atrás apenas do presidente da Assembléia, Aníbal Khury - sem nunca ter participado de um pleito político.
Sem o apoio da família Belinati, Lerner teria passado maus bocados nas mãos de Requião. É só relembrar um pouco. Meses antes da eleição, Belinati nomeou seu secretário de Recursos Humanos, o advogado Marcos Colli, simplesmente o presidente do PMDB local. Com o PMDB no bolso, Lerner nadou de braçada em Londrina. Por outro lado, ele sabe que, na próxima eleição para governo terá possivelmente Antonio Belinati como um dos postulantes ao Palácio Iguaçu.
Alguns podem até considerar ilações sem propósito mas - novamente relembrando um pouco o passado - é possível, sem muito esforço, perceber que a relação entre o prefeito Belinati e Lerner nunca foi de amizade. Até agora um precisou do outro e os acordos foram feitos nesse sentido. Com a nomeação de Canziani, salvo engano, sem a anuência do prefeito e da vice-governadora, a relação pode estar por um fio. Canziani, quando foi vereador, sempre foi um crítico ácido de Belinati. Depois, por esses descaminhos da política os dois se uniram. Agora, parece que chegou o momento da separação, patrocinada pelo governo que, aparentemente, quer ter uma nova força em Londrina para não depender exclusivamente do prefeito Belinati e família. Qual é mesmo o número do Procon?
- CLÁUDIO OSTI é redator da Folha em Londrina

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