Caminhoneiros em legítima defesa
‘‘Nos ameaçaram com cães, e vários caminhoneiros foram agredidos com cassetetes.’’ Palavras de um caminhoneiro participante do movimento contra o pedágio, terça-feira em Ponta Grossa. Pior que nos tempos da ditadura!
O novo Secretário de Segurança, José Tavares – homem do interior e que por isso conhece as agruras dos simples – sabe que passará a defrontar-se, doravante, não apenas com a moralização da Polícia mas com essa guerra que mal começa, a dos transportadores de cargas e motoristas em geral contra a ditadura do pedágio.
Que não se iluda o governador Jaime Lerner, imaginando que pela simples repressão aos caminhoneiros restabelecerá a paz nas estradas!
‘‘Este pedágio é o absurdo instalado’’ – disse um caminhoneiro. Muito mais: é violência instalada. Porque nunca se viu entregar a empresas privadas rodovias já prontas, pagas pelo povo, concedendo-lhes o direito de colocar obstáculos no meio delas para nos bloquear a passagem. Ora, com isto o governo fere o direito que temos de ir e vir, ademais sobre o que nos pertence.
Cobrança de pedágio existe nos países desenvolvidos, foi um grande invento, pois possibilitou a entrada da empresa privada no gerenciamento de um serviço público como a rodovia, porém nesses países primeiro as empresas vencedoras das concorrências construíram as estradas, com seus próprios recursos, para só depois cobrar. Isto se chama privatização. Como essas estradas novas eram opção, foram mantidas as anteriores, para dar o direito de que pudesse trafegar por elas quem não quisesse pagar pedágio. E afora todas essas vantagens, as tarifas cobradas nas rodovias privatizadas sempre foram baixas, como ainda hoje. No mais dos casos frações de dólar.
Agora os caminhoneiros reagem, e sabe-se que não estão praticando baderna, mas apenas defendendo-se. Estão exercendo legítima defesa. Se um assaltante nos ataca, o que fazemos? Ou nos rendemos ou reagimos. Os riscos de ganho e perda são idênticos. Os caminhoneiros resolveram reagir.
Um homem violentado enfrenta até baioneta calada!
Se tropas de choque devam ser mandadas, será para protegê-los, não para reprimi-los.
Não temos que financiar a empresa privada para que construa estradas para nós. Isto é privatizar o ganho e socializar o custo. Mas nem há como culpar as empresas concessionárias do pedágio, no Paraná, porque o governo lhes estendeu a bandeja e elas aceitaram, certamente nem acreditando no que viam. Melhor negócio que este só as minas do rei Salomão!
A propósito, uma boa pergunta: quanto dinheiro as concessionárias já arrecadaram, sem quase nada dar em troca, desde o episódio eleitoreiro da redução dos 50% – há 1 ano e 8 meses – quando elas paralisaram a execução de obras básicas e praticamente cessaram a manutenção das estradas?
Fui a primeira voz a se levantar, na imprensa – isto quase dois anos atrás – contra o modelo de pedágio implantado no Paraná. Isto obviamente não me confere nenhum troféu, já que faz parte da missão de quem escreve, mas é apenas para lembrar que eu já afirmava, na época, que haveria transtornos pela frente e que a saída seria e rescisão desses contratos. Para alguns, isto seria impossível, e eu mesmo afirmava que seria difícil, pelos contratos assinados. E agora vozes sensatas estão propondo justamente a anulação desses contratos. As próprias concessionárias não devem estar se sentindo seguras. Então, ensina a sabedoria, que a mão que faz também pode desmanchar.
Já se viu que este pedágio não vai durar. Começou impregnado pelo vírus da insensatez. Tem cheiro do que se cunhou chamar banda podre. Com o paralelismo do IPVA já cobrado, do seguro obrigatório, das multas, das taxas para tirar carteira, selinhos disto e daquilo, mais os quase 50% de encargo que já pagamos ao governo na compra do veículo automotor, e mais (ufa!) o imposto do combustível (tudo em função do veículo), então não há nome melhor para se dar ao pedágio do que ‘‘banda podre do rodoviarismo’’.
O motorista Jeová Pereira diz, na Folha de ontem, que o custo do óleo diesel para um caminhão médio, que sai de Foz do Iguaçu e vai a Paranaguá, é de R$ 256, enquanto o custo do pedágio, nesse trecho, é de R$ 209. Ele é quem diz: ‘‘É o absurdo instalado’’.
No pedágio escoa o lucro do pobre caminhoneiro.
Outro diz que vai vender o caminhão e parar. Este o resultado do cometimento do governador, com seu pedágio: destruir empregos e esperanças.
Incoerente que o governador incentive indústrias a que venham ao Paraná fabricar automóveis e caminhões, concedendo-lhes vantagens mil (quando elas até nos pagariam para vir, se o exigíssimos, já que querem expandir-se e não têm espaço e nem mão-de-obra barata em seus países), e depois pune quem compre esses veículos, armando-lhe tocaias nas estradas...
Há que extinguir este modelo de pedágio e começar do zero, abrindo concorrência a empresas que tenham suporte para construir as rodovias que queremos, e que só cobrem após concluídas as obras. Manutenção das atuais, isto se faz só com a arrecadação do IPVA.
Faça mais viagens ao exterior, governador! Faça-as. Mas não para fazer discursos e sim para ver como é, lá fora, o sistema de privatização de rodovias!
Guarde os cassetetes, governador! Pense, agora, em como rescindir esses contratos. O senhor não tem outra saída.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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