''Caminho'': politicamente incorreto - Maria Helena Nery Garcez
Caminho: politicamente incorreto
Maria Helena Nery Garcez
É lugar comum ouvirmos comentários do tipo: Eu já nem ligo o telejornal! Chega de ouvir desgraça. Guerras, genocídios, assaltos, sequestros, atentados terroristas, assassinatos, filhos que matam mães, mães que matam filhos, playboys que incendeiam índio e saem impunes, adolescentes que matam colegas na escola, adolescentes que matam velha para se divertir, a comentarista econômica que capricha para dizer que tudo sempre vai mal e que só irá piorar, muito mais do que a gente pensa e pode imaginar, e que aquela medida que se tomou é só ilusão, políticos corruptos, Judiciário corrupto, mulheres dando à luz na calçada, velhos procurando internação de hospital em hospital e morrendo no caminho, reformas que não se fazem e as que se fazem não eram exatamente as que se deveriam fazer, crises, crises e mais crises...
Que o mundo-mundo-vasto-mundo está em crise agudíssima, todo ele, de cima abaixo, da cabeça aos pés e da esquerda para a direita, não há como negar. Alguém poderia objetar que ele sempre esteve e, em parte, dá para concordar. Crises houve sempre, mas agudíssimas, como as deste século XX e, particularmente, destas últimas décadas, também não há como negar.
Holocausto não houve só o dos judeus; estamos assistindo a outro, ao vivo, em Timor Leste, muitas vezes comendo pipoca diante da televisão. E sabemos que ele não é o único mas apenas é o que se está dando diante de chefes de Estado que, ao redor de belas mesas e sentados em cômodas cadeiras estofadas, tardam horrores a se mexer. Não são as suas filhas que estão sendo estupradas e empaladas nas ruas...
Tudo isso me veio à cabeça quando me pediram para escrever um artigo a propósito da 9ª edição, que acaba de chegar às livrarias, de um livro politicamente incorretíssimo. Ele não diz nada, nadinha do que está na moda nesta cultura de plástico e permissividade, de clones e andróides, de armas químicas, biológicas e não sei o que mais, de bebês que não chegam à luz e de velhos a quem se apaga a luz. Seus temas parecem que já eram neste mundo onde um filósofo bigodudo decretou a morte de Deus mas a este não conseguiu apagar e quem morreu foi ele, deixando atrás de si um rastro de sub-homens, que tornaram o mundo muito pior.
Caminho começa, justamente, com um chamado a deixar um rastro de fé, de luz, de amor. Convida a apagar não as vidas mas o rastro dos semeadores do ódio e a levar o fogo de Cristo a todos os caminhos da terra. Não está na moda esta mensagem, mas também está. Basta vermos os adesivos dos carros nas nossas ruas. Nunca houve tantas frases das Escrituras, tantas mensagens estimulando ao bem, tantas profissões de fé: Sou evangélico, Sou feliz porque sou católico etc.
É a fome de Deus e do bem, a consciência de que questo mondo a bisogno di salvezza, como dizia Paulo VI na audiência de 4ª feira da Semana Santa de 1971, frase que nunca pude esquecer. O rastro de fé, de luz e de amor, contudo, não pode ser tão fugaz quanto a visão de um adesivo que se lê enquanto o farol não abre ou quando o cristianíssimo motorista nos dá uma bela fechada.
Em 999 pontos de meditação, o livro nos propõe encarar de um modo vivo a relação com Deus, a ganhar uma tal amizade com Ele que, cultivada dia a dia, irá se tornando intimidade. De um modo politicamente incorreto, ele nos chama a atenção para a necessidade de um diálogo contínuo com o Senhor em qualquer situação em que nos encontremos: trabalho, lazer, vida familiar, social etc.
De um modo politicamente incorreto, ele nos chamará a atenção para a necessidade das virtudes, mesmo das que gozam de menor popularidade segundo as pesquisas dos ibopes da vida, para a necessidade de uma coisa que soa a dinossauros e que, evidentemente, não está em alta em nosso mundo: mortificação.
Nos falará também da alegria, da amizade e do ideal. Falará, sobretudo, do amor a Deus, do procurar, conhecer e amar a Jesus e a sua Mãe, do grande ideal cristão, que parece utopia mas não é, de levar Cristo a todos os rincões do mundo, de levantá-lo no cume de todas as atividades, de pô-lo no meio deste mundo em crise para redimi-lo juntamente com Ele. Questo mondo a bisogno di salvezza, é só assistirmos ao telejornal...
Josemaría Escrivá, o autor de Caminho, traz a mensagem de que qualquer um de nós é chamado a uma intensa vida cristã, que é isso o que se quer dizer com a palavra santidade, tanto os presidentes das nações, quanto o presidente da associação esportiva do bairro, o faxineiro que trabalha no Palácio da Alvorada, as margaridas que varrem a cidade, os artistas, as secretárias e os executivos, os enfermos e os médicos, as mães de família e seus filhos, as diretoras de cinema, os jornalistas, estilistas, biólogos, políticos, professores, operários e assim por diante. Cada um buscando a intimidade com Deus, o seguir a Jesus em tudo quanto faz a cada instante de sua vida, mesmo que não o consiga nem plenamente nem todas as vezes, seguramente irá melhorando, e melhorando o mundo que tem à sua volta.
Concluindo, transcrevo um pensamento de Caminho, o de número 301, que tem tudo a ver com o modo como principiei estas considerações: Um segredo em voz alta: estas crises mundiais são crises de santos. Deus quer um punhado de homens seus em cada atividade humana. Depois... a paz de Cristo no reino de Cristo.
- MARIA HELENA NERY GARCEZ é professora universitária titular em São Paulo





