Caminhar junto ou comer poeira
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sexta-feira, 17 de janeiro de 1997
Walmor Maccarini 
Nestes tempos de sadia competitividade, sobretudo nos setores de prestação de serviços, quem não se profissionalizar e não ficar atento ao negócio dará com os burros nágua, porque a clientela ficou exigente e num piscar de olhos troca de lugar, até encontrar o que lhe satisfaça, em qualidade, preço e atendimento. Quem quer sobreviver em alta tem que se manter vigilante, porque as pessoas só passaram a gastar o necessário; então, é preciso ter talento para captar esse dinheiro circulante, administrá-lo bem e fazê-lo girar, porque o pouco vai se transformar em muito, se estiver em constante movimento. Não é uma grande quantidade de dinheiro que robustece a economia, mas a velocidade com que ele gira. Cinco reais correndo a mil - ou seja, passando rápido de mão em mão - valem mais que 500 guardados no cofrinho.
No ano passado fui testemunha, em Londrina, de fatos que vou narrar, para demonstrar que, assim, não dá para ser feliz.
No escritório do principal shopping da cidade acompanhei um empresário interessado em locar uma sala, para montar seu negócio. Primeiro, não puderam atendê-lo na hora, porque havia muita gente lá dentro, segundo informou a recepcionista. Então ele preencheu uma ficha, com todos os dados pessoais, telefones etc, mas nunca o procuraram. E muitas salas continuam fechadas, lá, inclusive uma pela qual ele havia se interessado, pela localização.
Numa loja de móveis, decoração e artefatos de mármore, o cliente já pagou uma peça que, dez meses depois, ainda não lhe foi entregue. Serviço que não tomaria mais de dez dias.
Apartamento pronto, o cliente buscou um orçamento para as obras de acabamento e requinte. Como era sexta-feira, alegaram que hoje não dá mais e amanhã é sábado, dia de descanso. Ele então deixou o endereço do imóvel, a chave à disposição na portaria, mas passados os dez dias seguintes ninguém apareceu.
E a loja continua lá, anunciando seus serviços...
Na maioria dos estabelecimentos comerciais ou prestadores de serviços os donos e atendentes só se queixam da vida. Estão cansados, sonolentos, achando que o freguês que acaba de entrar não vai comprar nada. E geralmente não vai mesmo, mas quem sabe com um agrado, com boa vontade, com a mente positiva... Já em outros o vendedor é ligeiro demais, diríamos inconveniente, porque não larga o freguês, que, encabulado e pressionado, sai pela primeira porta que encontra, para livrar-se daquele encosto.
Uma farmácia do centro, das mais movimentadas, não tinha aspirina. Farmácia sem aspirina é como boteco sem cachaça. Em farmácia pode faltar tudo, menos aspirina.
E há aquelas lojas do estamos em falta. Você procura uma mercadoria, a loja é do ramo, mas nunca tem nada...
É preciso manter
qualidade, preço
compatível e
bom atendimento
Uma pessoa deixou um imóvel para vender, numa imobiliária. A primeira coisa que ouviu do avaliador sobre seu bem foi um monte de defeitos. A mercadoria (um apartamento novo, bem construído e em ótima localização) foi xingado e humilhado... Talvez a intenção do imobiliarista foi atribuir-lhe avaliação baixa para vendê-lo mais fácil, mas deu o contrário: perdeu o cliente.
Um restaurante começa bem, com bons serviços, embora cobrando caro. De repente a qualidade cai, o preço continua alto, a clientela some. Aí o preço baixa, mas o freguês já se foi e não volta mais. Há casos em que o padrão se mantém, mas o preço é exageradamente salgado. O cliente, então, passa a diminuir a frequência, a casa balança e aí a primeira coisa que sacrificam é a qualidade. Fim do negócio. Por que não manter sempre qualidade, preço compatível, bom atendimento? É só pecar num desses itens que o negócio descamba. E a culpa não é do governo...
Alguns restaurantes acham que a solução é colocar música ao vivo. Aí os músicos começam a fazer competição com o vozerio da clientela, e cada qual passa a tocar e a falar mais alto. Os fregueses acabam se irritando e não retornam. Aí só ficam os músicos, com seus instrumentos mudos. Faz-se, afinal, o silêncio... Os donos desses estabelecimentos deveriam saber que as pessoas vão aos restaurantes primeiro para ver gente, segundo para conversar, terceiro para comer. Para só comer, a gente vai em self-service.
Alguém da casa deveria, a cada hora, fazer uma visitinha aos banheiros, para ver se ainda tem papel, sabões e sabonetes, e como está a higiene do ambiente.
Num certo restaurante, em Londrina, famoso pela antiguidade, os garçons circulam sempre de cabeça baixa, para não verem e serem chamados. Perguntei a um deles a razão disto e ele respondeu que é porque ganham pouco e por isso trabalham contrariados. Pensei: com esta cabeça não merecem mais que ganhar mal.
Alguns vão recebendo clientes até adiantada hora, mas de repente começam a empilhar cadeiras e varrer o chão, mesmo com clientes ainda à mesa. Uma tremenda falta de respeito.
E há os restaurantes finos que servem vinho e água em copos de vidro em vez de cristal. Restaurante, então, acaba ponto ótimo para uma loja de calçados...
E por falar em calçados, as lojas que dominam o setor, em Londrina, não investem em linhas sofisticadas, só encontráveis em centros como São Paulo, Roma, Paris, Nova York. Só tem os de solado de borracha, os decorados com aqueles lacinhos e os de bico fino de pelica ou cromo alemão, dos tempos da calça de linho e camisa idem. Quem tem é bom guardar, porque a moda sempre volta... Cintos, só os de boiadeiro, com aqueles fivelões.
Competir não é detonar com o concorrente, mas caminhar junto, no ritmo da modernidade.
Não é ironia nem deboche, mas um alerta. Hoje, quem quer sobreviver em alta tem que avançar, porque a clientela já está lá adiante. Neste final do segundo e entrada do terceiro milênio quem não chegar junto comerá poeira. E a culpa não será do governo!


