É uma série de tiras criada por Bill Watterson (estadunidense), publicada entre 1985 e dezembro de 1995, vencedora do prêmio Reuben (o Reuben Award) da Associação Nacional dos Cartunistas dos Estados Unidos.

Calvin é um garoto de seis anos que tem a companhia de Hobbes (traduzido para nós enquanto Harold), um tigre de pelúcia caracterizado por suas afirmativas filosóficas e irônicas que, para Calvin, é um ser vivo.

Guardadas as proporções entre seus criadores e sopesada as vicissitudes de nossa realidade latina, sempre vi em Calvin uma espécie de Mafalda (uma de minhas paixões) de calça. Seja porque Calvin, em suas fantasias, busca fugir da crueldade do mundo (o que Mafalda dessumia com sua conhecida ironia argumentativo-disruptiva), seja na conta dos enfrentamentos propostos sob o lúmen temático fantástico de ambos – um desnudando a sociedade de consumo estadunidense, a outra destruindo a ditadura Argentina.

Diferenças à parte, o que me parece mais que comum em ambos é o olhar voltado a natureza humana e seus meandros – ambos apegados a pauta da ironia no enfrentamento das dificuldades de bem viver.

Deveras e para evitar bobagens aleatórias, sigo com Mafalda no pedestal, a indefectível Graúna, do Henfil, uma prateleira abaixo (quase colada ao podium) e, na sequência empatados, Hagar o Horrível (by Dik Browne em 1973) e Calvin.

Isso resenhado, falo de Calvin na conta de uma de suas muitas tirinhas que revi outro dia. Calvin estava sobre um galho de árvore sombreando o leito de um córrego, ladeado de Harold, falando ao amigo tigre sobre sua decisão de deixar de frequentar a escola – ‘Resolvi que não vou mais a escola. Eu não preciso de estudo. Eu não preciso aprender coisas. Eu não preciso desenvolver habilidades. Dá muito trabalho’.

Preocupado, Harold questiona: ‘E como você vai ser bem-sucedido se não souber nada e não tiver nenhum talento? ’ A resposta de Calvin é avassaladora: ‘Eu vou aos programas de entrevista e me autopromovo’.

Não sei com precisão o ano de publicação da tira, mas o período possível já delimitei no início desta nossa pequena aventura (entre 1985 e dezembro de 1995) e isso é mais que suficiente a demarcar o caráter premonitório da fala do menino inquieto, destacando a observação da natureza humana em polo de conflito com a solidão da ignorância.

A sociedade estadunidense veio adoecendo ao longo das cinco últimas décadas. Seja por apego costumeiro ao efêmero, seja por desídia neoliberal em estado bruto, ambos índices mais que brutais da ausência de empatia dos pilgrins, ou ainda por conta da essência de sua formação, que reclama o sucesso econômico como ponto de partida e de chegada...

Este adoecimento é o sintoma afirmativo da desconsideração democrática de seus últimos governos totalitários (Wikileaks explica, Freud nem tanto) e, o que estamos assistindo na segunda volta de Trump está desenhado, literalmente, na tirinha de Calvin and Harold aqui revisitada – ainda que metaforicamente, porquanto uma vida sem metáfora não é bem uma vida e sim uma vacina contra a arte de bem-viver...

O mandatário da outrora maior democracia do mundo (mais retórica que reconhecimento) não é sequer um democrata – e isso é, também, sintoma do adoecimento de uma sociedade.

Fosse ele, Donald, um democrata, os princípios basilares da democracia estariam preservados e na ordem do dia de seu governo. Haveria, sim, uma bem delineada preservação da soberania popular e sua só assunção conflitaria e impediria a criação do ICE (serviço e imigração e controle alfandegário estadunidense). Nesta mesma matriz inserimos o estado de direito e a igualdade perante a lei a impedir o que se vê passar em terras pilgrins, neste recorte da história.

Na esteira de nossa fala se insurgiria um judiciário verdadeiramente independente, com a assunção separatista dos poderes, em ordem a desaguar no pluralismo que abraça a diversidade e na liberdade que aperfeiçoa as valenças do homem.

Não é o que vemos por lá e, a depender do que aconteça em nossas eleições deste ano, não será o que ainda divisamos por aqui – e não falo apenas e tão somente do alinhamento fascista a direita.

Noves fora minha desalegria com a ausência de conhecimento e de habilidades específicas das personagens revisitadas neste artigo, não consigo desligar da realidade da extrema direita a solução singela de Calvin – autopromoção em programas de entrevistas.

Tanto lá (no cartoon) como aqui e agora (na efervescência explorativa das gentes) perceber a realidade das cousas é essencial, até para que a conformação metafórica do mundo não seja senão uma benção – ‘sobre a dura realidade da vida, o bálsamo benigno da fantasia’, by Lourenço Diaféria, nosso maior cronista.

Assim é que devemos aprimorar nosso olhar para aqueles que se nos apresentam enquanto solução de bem viver e, neste exercício de aprimoramento, pesquisar o passado recente.

Falar de democracia sem compromisso democrático é quase como levar um cubo de gelo para refrescar o deserto e se orgulhar da iniciativa. Conhecimento histórico não reconhece promessa mentirosa de influenciador – afinal não há como jogar com responsabilidade.

Só a empatia a vida muda. Então, abracem e ouçam o tigre que caminha junto a gente – ele sabe a pergunta a ser feita na hora da dificuldade.

Tristes trópicos, saudade Pai!

João Gomes Filho, advogado

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