Calcinhas faceiras
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de junho de 2003
Vívian Antunes 
Há alguns meses tenho freqüentado diariamente a biblioteca. Local movimentado e povoado por adolescentes por todos os lados. Eles chegam no começo da manhã discretos e meio sonolentos, estudam, comem, namoram, dormem, conversam, estudam... e assim vão ficando até se aproximar a hora do almoço. Quando os ponteiros do relógio começam a aproximar-se um do outro eles vão saindo discretamente um a um, mas se acontece de ficarem alguns quando os ponteiros se juntam saem como uma revoada de pombos: todos de uma só vez.
Depois do horário do almoço, lá pelas 14 horas, eles vão voltando. Novamente sonolentos, vem chegando, e estudam, comem, namoram, dormem, conversam, atendem às inúmeras chamadas telefônicas, estudam...
Dias desses vi uma dessas meninas que ocasionalmente estava sentada à minha frente lutando desesperadamente com sua calça jeans. É que com o advento das calças baixas, ou seja, aquelas que ficam bem a baixo da cintura, lá pelo meio do quadril, é preciso fazer uma verdadeira ginástica para manter a calcinha em seu devido lugar: escondida.
E essa pobre menina que havia adquirido uma calça jeans baixa e mantido as mesmas calcinhas de antes, puxava de um lado, puxava do outro e nada, a peça que deveria ser íntima continuava mostrando, toda faceira suas rendinhas.
Foi aí que resolvi fazer uma pesquisa de campo e descobri uma verdadeira exposição de calcinhas. Havia ali naquele momento, calcinhas para todos os gostos: de malha, renda, lycra, azul, amarela, vermelha, preta... todas aparecendo, vendo o mundo e sendo vistas por ele. Algumas meninas guerreavam com suas calças, querendo esticá-las, outras puxavam a camiseta ou amarravam a blusa de frio na cintura ou ainda outras desistiam e deixavam que as sapequinhas espiassem livremente tudo em volta.
Nesse momento vi passando pelo corredor central da sala de estudos uma garota diferente das outras. Enquanto todas queriam esconder a todo custo sua peça íntima, ela andava despreocupadamente com sua calça muito bem posicionada no meio do quadril, mas ao invés de calcinha ela usava uma cueca cheia de estilo, e fazia questão de mostrar prá todo mundo o elástico grosso abaixo do umbigo estampando uma marca famosa de roupas masculinas. Pronto! O problema acabara de encontrar no armário dos meninos a solução para a batalha entre calça baixa e calcinhas.
VÍVIAN ANTUNES é professora de História em Brasília


