Há duas coisas que o delegado-chefe da Polícia Civil em Londrina, Sérgio Luiz Barroso, não admite em relação ao mistério criminal de maior repercussão dos últimos anos em Londrina. A primeira é a possibilidade de que o assassinato da universitária Amanda Rossi, 22, que acaba de completar 10 meses, jamais seja solucionado. A segunda é que a demora para encontrar o culpado pelo crime cometido no campus da Unopar seja atribuída a falhas no trabalho de investigação.

Em entrevista à FOLHA, Barroso rebate colocações feitas neste mesmo espaço na semana passada pelo perito responsável pelo caso, Luciano Bucharles, especialmente a de que nenhum delegado foi ao local do crime quando o corpo foi achado. Ele reconhece que o crime traz desgaste à imagem do órgão, mas se diz convicto de que chegará a sua autoria - só não sabe quando.

Por que nenhum delegado esteve no local do crime no dia em que o corpo de Amanda foi encontrado?
Porque o perito não chamou. Eu fiquei sabendo do encontro do corpo pela imprensa, quando ele já havia sido levado ao IML. A minha orientação é para que os delegados compareçam a todos os locais de morte, e a imprensa é testemunha de que isso tem acontecido.

E o que tornou justamente este caso uma ''exceção''?
Naquele dia foi uma equipe de homicídios da 10 SDP - um investigador e um escrivão - porque o delegado do setor estava de férias. Mas ele (Bucharles) poderia ter me telefonado e solicitado que determinasse a presença de outro delegado. Eu mesmo poderia ter ido. Ele não o fez e liberou rapidamente o local do crime, inclusive para que fosse lavado logo em seguida. É estranho, porque a orientação da Criminalística é que o perito nem vá ao local se o delegado não estiver lá.

O senhor está dizendo que o perito não deveria ter ido?
Deveria ter aguardado o delegado chegar. Ou solicitado a presença dele. Se ele está levantando isso tantos meses depois, acreditando que pudesse ter havido algum prejuízo para a investigação, não deveria ter liberado o local, nem o corpo.

Mas o delegado da área, por exemplo, não deveria ter ido espontaneamente?
Qualquer delegado poderia ter ido. O da região (4º DP) estava de folga devido à escala de plantão, se não me engano. Tão logo eu soube do fato entrei em contato com o delegado de Homicídios, que mesmo estando de férias retornou para acompanhar a necropsia.

Mesmo passados 10 meses sem solução para o crime, o senhor não acredita que a ausência da autoridade tenha prejudicado a investigação?
Entendo que não houve nenhum comprometimento. A presença do delegado em local de morte onde existem testemunhas e prováveis autores nas imediações é fundamental. Não em um caso como o da Amanda.

Os plantões matinais de domingo costumam ser tranquilos. A polícia não poderia ter ido verificar o desaparecimento antes?
A família da vítima, os amigos, os funcionários da Unopar, todos estiveram no campus procurando-a no domingo. Não encontraram o corpo porque estava num local de difícil acesso, que ninguém imaginava. E a polícia não tinha notícia de um crime, até então havia o desaparecimento de uma pessoa.

Uma jovem que, segundo os pais, nunca saí sem avisar...
Ela era maior de idade, costumava pousar fora de casa e naquele dia avisara à família que dormiria fora. A família veio à delegacia, registrou a ocorrência, os policiais ligaram para o telefone dela. Não adianta ficarmos tratando de hipóteses, imaginando ''se isso'', ''se aquilo''...

Os primeiros pares de calçados para comparação com pegadas achadas no local só chegaram este mês à Criminalística. Por que isso não foi feito antes?
O inquérito corre em sigilo, não quero discutir o caso em si. Foi um crime emblemático, de difícil investigação e que, ao contrário dele (Bucharles), tira o nosso sono, sim. Também somos pais e sabemos das dores que a família sente. Queremos colocar quem fez essa barbaridade na cadeia o mais rápido possível. Mais de uma centena de pessoas foram ouvidas, algumas duas ou três vezes, diversas diligências estão sendo realizadas. Não vejo nenhuma falha até o momento.

Já podemos admitir a possibilidade de que este crime jamais seja solucionado?
Não admito essa possibilidade. Enquanto for delegado-chefe em Londrina, esse caso não vai ser esquecido porque é uma questão de honra da Polícia Civil. Eu acredito na solução. Não tenho como te dizer se vai ser amanhã, na próxima semana ou ano que vem. A investigação não tem data para terminar.

Com o distanciamento crítico que quase um ano traz, o senhor avalia que alguma das partes envolvidas - a universidade, por exemplo - poderia ter colaborado mais?
Seria muito leviano ficar levantando dúvidas com relação a qualquer tipo de instituição. Tudo que fazemos na vida funciona como se fosse uma engrenagem, tudo tem seu papel fundamental. Se todo mundo fizer bem sua parte, o resultado vai ser um sucesso.

Então alguém não fez a sua....
Eu posso dizer que o trabalho da polícia está sendo bem feito. Tudo que é possível em matéria de investigação e inteligência foi e está sendo utilizado, buscando a solução e a prisão dos autores.

Alguém pode estar sendo protegido?
A polícia não protege ninguém, sequer cogito uma hipótese dessas na investigação. A polícia busca a verdade e a solução do fato. A lei é igual para todo mundo.

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