Calar já não adianta
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quarta-feira, 06 de maio de 2020
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A situação que vivemos hoje no Brasil é muito preocupante. A democracia brasileira não apenas corre perigo. Ela está se encolhendo, diminuindo e quase sumindo. Agredida e injuriada nas suas principais instituições. O presidente da república, jurando defender a Constituição, não deixa passar um dia sem a atacar. O Congresso e o STF estão funcionando, dizem alguns. A verdade é que estão trabalhando em modo reativo e não sei até quando.
Acuado pela turba miliciana, o Parlamento não demonstra uma posição firme que se esperava há vários meses. O líder, tíbio, demonstrando falta de coragem ou “incômodo” em enfrentar as loucuras presidenciais, vem apenas piando, dando as maiores escusas até para aceitar um simples pedido de impeachment, que segundo se sabe, não faltam na sua mesa!
O STF tem reagido adequadamente, mas não sabemos como ficarão os colegiados, agora nitidamente pressionados e ameaçados à luz do sol nas rampas do poder. Estas instituições toleraram demais as loucuras deste homem!! Nunca nos enganou. Não é que ele tenha escondido nada.
Na campanha eleitoral revelou-se tal qual é. Hoje continua aquilo que prometeu ser. Nós é que flertamos com o terror em elegê-lo! Claro que sempre confiamos na solidez das Instituições que poderiam nos socorrer em momentos delicados como este. Mas mais uma vez olvidamos que pessoas maquiavélicas assim, a primeira coisa que fazem é fragilizar os glóbulos brancos do organismo social que nos defenderiam de um ataque virulento desse calibre.
Não! Não é o coronavírus que derrota um país como o Brasil! O país é páreo com outros mais desenvolvidos para enfrentar essa pandemia; haja visto o combate à AIDS e outras pestes, no passado.
Temos o melhor sistema mundial de saúde pública e recursos não nos faltariam. Mas a nossa jovem democracia, fragilizada pela corrupção endêmica que perdura desde o seu renascimento, não está preparada para a exponencial agressividade deste vírus político. Ele é uma mutação feroz do seu primo, que provocou a intervenção militar de 64, embora ali houvesse a desculpa de estar inserido num contexto sul americano de época. Mas esta cápsula proteica atual, envenenada de ódio e abominação pela ciência e pelo diálogo com o diferente, penetra nas células institucionais do próprio sistema democrático e através delas mata o corpo.
O país está ficando cansado de reagir em doses homeopáticas diárias. Não vamos aguentar. O limite do razoável foi ultrapassado. Expressões como Globo lixo, Folha lixo, Estadão lixo, esquerda lixo, ou Moro lixo...estão empurrando o Brasil para o abismo caótico do qual nada de bom poderemos tirar. Enfermeiros e jornalistas sendo espancados e acobertados pelo sorriso cínico do chefe, são o escancaramento de uma tumba podre que necessita por uma assepsia total. A economia? Essa é de longe a que mais perde com tamanha loucura. Não há dinheiro limpo sem estabilidade! Não existem investimentos estrangeiros num pandemônio político comandado por alguém que demonstra insanidade ao provocar o caos no país!
O Brasil se apequena hora a hora. Já está minúsculo em todas as organizações internacionais. Nossa diplomacia empurrou Brasília para o time dos países sem nenhum respeito mundial. Somos motivo de chacota. Nos olham com desdém. Os que acreditavam no Posto Ipiranga sabem agora que a qualquer momento também ele virará “traidor”! Nossos grãos que a cada ano superam a safra anterior, se dirigem prioritariamente a um país que vem sendo ultrajado pela família presidencial. Um chefe conspirando contra o seu próprio exército! E daí? Nenhuma compaixão, nenhuma empatia, nenhum respeito. Ausência total de liderança e a exposição cotidiana de um país à deriva. Ainda há tempo...
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina.


