Informações bem guardadas durante anos em importantes gabinetes da República virão à tona nas próximas semanas. Essa é a tendência das CPIs dos Bancos e do Poder Judiciário. É o que a imprensa vem anunciando diariamente. Ora em doses cavalares, ora em pílulas homeopáticas. Mas as revelações só serão possíveis se as investigações promovidas pelas duas comissões não forem interrompidas ou desviadas por estarem contrariando interesses ou chegando perto de gente influente. Dinheiro e poder são coisas que se confundem.
Já se defendeu a tese de que menos de 20 nomes revezaram-se no Banco Central nos últimos 15 anos. Ouve-se falar de tudo um pouco sobre cada um dos que ocuparam cargos de destaque no sistema financeiro oficial. Sabe-se que muitos ficaram bem de vida.
Mas o que é fantasia, o que é verdade, o que é tramóia nas milionárias transações entre instituições bancárias particulares fechadas sob as bênçãos do Banco Central? E o que é desmando e o que é acerto no Poder Judiciário? O que é fraude e o que é justiça?
Denúncias de tráfico de influência também se confundem nas duas comissões. Os dois casos - bancos e tribunais - trazem segredos que não são de Polichinelo. São caixas-pretas à prova de explosões. Só não resistem às verdades, mesmo que surjam do inesperado. De motoristas, irmãos ou genros passados para trás.
Nas duas esferas há quem queira o esclarecimento de todas as denúncias, há quem prefira deixar tudo como está, há os que querem tirar proveito da fragilidade alheia, e aqueles que apenas ameaçam, chantageiam, exibindo poder sem limite.
Em todos os casos, muitas mentiras, poucas verdades. Assombra o contribuinte o fato de a Comissão Parlamentar de Inquérito do Sistema Financeiro estar encostando no governo. Fatos revelados na semana passada levaram os senadores de oposição a decidir pela convocação de ministros.
São auxiliares de primeiro escalão de Fernando Henrique, gente que conhece o sistema financeiro por dentro e por fora. Detentores de confidências, sabedores de fraquezas e arroubos de gente que tem lugar de destaque na economia e na política.
O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, que já depôs na CPI, pode ser convidado a voltar. Quem sabe para explicar por que o Banco Central aparentemente mentiu ao justificar o socorro que prestou aos bancos Marka e FonteCindam.
Fraga tem a chave do cofre de segredos do Banco Central. Poderá esclarecer também, se provocado, porque seis instituições financeiras apontadas pelo deputado Aloizio Mercadante - que depõe hoje na CPI dos Bancos - teriam obtido informações privilegiadas e lucrado com a mudança no regime cambial em janeiro.
Duas dessas empresas - os bancos BBM e Garantia - tinham como dirigentes na época diretores indicados para o Banco Central. Serão alguns daqueles 20 que se revezaram em cargos de confiança do Banco Central? O ministro da Fazenda, Pedro Malan, disse que não suspeita de vazamento de informações.
Mas a CPI desconfia. Os contribuintes também. E é preciso investigar até o fim. Até hoje pesam suspeitas sobre ministros e amigos do presidente deposto Fernando Collor que teriam sido favorecidos antes do confisco geral. Segredos protegidos pela caixa-preta. Até hoje.
- MÍRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

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