Se estou aqui, abusando da paciência do leitor, buscando as teclas brancas com a marca negra das letras, muito é devido ao poeta baiano Antônio Frederico de Castro Alves, cujo sesquicentenário de nascimento acabamos de comemorar, com merecido estardalhaço.
O encanto das palavras me foi apresentado nos fins de tarde do sertão distante do Rio do Peixe, quando minha mãe dizia de cor versos que ela mesma havia aprendido na juventude: ‘‘Talhado para as grandezas, P’ra crescer, criar, subir,/O novo mundo nos músculos/Sente a seiva do porvir./- Estuário de colossos -/Cansado de outros esboços/Disse um dia Jeová:/‘‘Vai, Colombo, abre a cortina/‘‘Da minha eterna oficina../‘‘Tira a América de lᒒ (‘‘O livro e a América’’; Espumas Flutuantes). Até hoje, estes versos me chegam à memória com a mesma emoção forte e pungente da primeira vez.
Castro Alves não era apenas um poeta romântico, o maior dos românticos brasileiros, um dos ápices de todos os tempos em língua portuguesa. Ele conseguiu cruzar todas as fronteiras do tempo, desrespeitando estilos e escolas: seus versos nos embalam os ouvidos na infância, na adolescência, na maturidade, na terceira idade etc. Eles sempre nos chegam frescos e quentinhos. O bom poeta consegue produzir a sensação de que suas palavras descrevem a emoção que o leitor sente, ou melhor, passa a sentir. Castro Alves vai além, ao dar a cada leitura a impressão de o poema ter sido produzido especialmente para ilustrar aquela exata momentânea emoção.
Um gênio, dirão! E com razão: só gênios têm acesso ao segredo desse cofre misterioso do tempo. Mas também o gênio do poeta baiano, cuja produção literária foi toda realizada no curtíssimo prazo de sete anos, tinha uma característica marcante, inesperada num criador de seu porte. Ele foi capaz de escrever alguns dos versos mais maravilhosos na língua que Luís de Camões consolidou. Um bom exemplo dessa afirmação pode ser, entre muitos, a segunda estrofe da 6ª parte de ‘‘O navio negreiro’’ (Os escravos), cuja beleza completa jamais foi alcançada pelos melhores atores que a leram, mas também conseguiu passar incólume colosso pelos milhões de colegiais tatibitates que se arriscaram a decorá-la. Ei-la: ‘‘Auriverde pendão de minha terra,/Que a brisa do Brasil beija e balança,/Estandarte que a luz do sol encerra,/E as promessas divinas da esperança.../Tu, que da liberdade após a guerra,/Foste hasteado dos heróis na lança,/Antes te houvessem roto na batalha,/Que servires a um povo de mortalha!...’’
Impressiona o fato de um poeta com tal domínio do verbo (e do verso) também seja capaz de cair em concessões às facilidades do sentimentalismo mais pueril. Como exemplo desses pontos baixos de sua poesia ocorre-me a primeira estrofe do poema ‘‘O coração’’, de Espumas Flutuantes. Aqui está: ‘‘O coração é o colibri dourado/Das veigas puras do jardim do céu./Um - tem o mel da granadilha agreste,/Bebe os perfumes, que a bonina deu’’. Esses versos, dignos de serem ordenados com desenhos de florzinhas silvestres em cadernos escolares de adolescentes casadouras ou da assinatura de um J.G. de Araújo Jorge, figuram ao lado de momentos fulgurantes da produção poética em português. Como o monumento à delicadeza erguido na quarta estrofe de ‘‘Adormecida’’ (Espumas flutuantes): ‘‘Era um quadro celeste!... A cada afago/Mesmo em sonhos a moça estremecia.../Quando ela serenava... a flor beijava-a.../Quando ela ia beijar-lhe...a flor fugia’’.
Ao mesmo tempo sublime e cafona, nosso poeta-mor, portanto, tropeçava nas pérolas do vernáculo, distraído, como a musa de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas em sua canção clássica, ‘‘Chão de estrelas’’. Talvez tenha sido essa capacidade de exibir o brilho do diamante sem deixar de lhe expor a jaça uma das grandes responsáveis por sua popularidade impressionante, que atravessou este século e meio. Nisso, aliás, aproximou-se de outro grande poeta, que chegou perto de atingir seu prestígio popular: Augusto dos Anjos. O gosto do poeta de ‘‘Eu e outras poesias’’ pela sonoridade esquisita das palavras levou-o a encontrar o cafona no sublime, e vice-versa.
Ocorre-me, ainda, haver Castro Alves inaugurado uma tradição bem brasileira, mas infelizmente cada vez mais rara: com a cadência fogosa de seus versos abolicionistas, ele foi também um grande tribuno, um orador, numa época em que o discurso era considerado uma arte. Ou seja, além de ocupar um lugar de destaque no altar-mor da produção poética portuguesa, ao lado de Fernando Pessoa e Manuel Bandeira e outros, ele também merece ser venerado nas tribunas onde brilharam Joaquim Nabuco, Carlos Lacerda e Vieira de Melo.
Neste época de poetas burocráticos e políticos inventivos, a obra de Castro Alves é um guia indispensável para promover a correta inversão. Pois a cultura brasileira precisa de poetas inventivos e a República de políticos profissionais mais fiéis à ordem constitucional vigente.

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