Café com veneno
José Nêumanne
Um diabinho sádico, que frequenta minha saleta na Redação e costuma tomar um cafezinho com veneno de matar rato, diverte-se muito com as agruras pelas quais passam colegas correspondentes de jornais no exterior, principalmente os sediados em democracias mais antigas, para explicar a seus editores as mui peculiares condições de nossa democracia.
Na semana passada, ele se engasgou com o café de tanto rir com um episódio. Como explicar ao leitor londrino, por exemplo, a invasão do campo do Vasco em São Januário, no Rio, por seu manda-chuva Eurico Miranda, correndo atrás da própria protuberância ventral, para tomar satisfações com o mirrado árbitro que teria prejudicado o time de seu coração? A barriga em tela pertence a um cidadão que no cafezinho do plenário da Câmara dos Deputados é tratado de Vossa Excelência. E quando não está sendo assaltado a caminho de casa com a renda do jogo (em espécie) no porta-malas do automóvel, produz aforismas de inegável originalidade ética, tais como: ‘‘Moral não paga as contas no fim do mês’’.
Um interlocutor xenófobo do diabinho dirá que mais escabrosa do que essa notícia é qualquer outra publicada em algum jornaleco da imprensa marrom britânica. Há, contudo, uma diferença apreciável: desde João Sem-Terra, nos primórdios do milênio que se encerra, os ingleses habituaram-se a punir criminosos. Na peculiar democracia à brasileira, o episódio de São Januário só produziu, por enquanto, um réu: o raquítico árbitro, acusado, entre outras coisas, de abuso de autoridade.
Para algum frequentador do Café de Flore, em Saint Germain-des-Prés, será mais fácil traduzir todo o texto do ‘‘Grande Sertão: Veredas’’, de nosso Joca de Cordisburgo, do que entender a peculiar linguagem da política brasileira. No mesmo dia em que o árbitro do jogo de futebol era punido pelos excessos que o deputado cometeu contra ele, um ‘‘nobre par’’ do vice-presidente de futebol do esquadrão cruzmaltino produziu outra pérola nesse vernáculo do avesso da política brasileira.
Pois sim. O acreano Hildebrando Pascoal pediu asilo a nove representações diplomáticas queixando-se de perseguição política. Deve ser o primeiro caso na história dos direitos humanos em que alguém se sente perseguido pelos fantasmas das próprias vítimas.
Pois esse senhor é acusado de mais uma centena de assassínios e lhe foi atribuída responsabilidade de mando por mais de 90% dos assaltos praticados no ano passado na capital de seu Estado o que, por si só, poderia lhe render pelo menos um processo no Cade por monopólio abusivo. Com esse prontuário (capaz de humilhar qualquer sequestrador ou serial killer preso em Bangu 2), contudo, esse cidadão brasileiro conseguiu legenda no PFL, elegeu-se deputado federal pelo Acre e foi diplomado pela Justiça Eleitoral. Quando um relato pormenorizado dos crimes de que é acusado (que inclui cenas como o uso de motosserras para esquartejar inimigos) foi lido numa reunião da Mesa da Câmara, todos trataram de lavar as mãos do sangue daqueles anônimos nortistas.
Agora, direis, Justiça foi feita. Nove meses depois da posse, Hildebrando Pascoal foi despido de suas prerrogativas parlamentares, entre as quais a imunidade, que é uma espécie de salvo-conduto para a prática de quaisquer crimes, desde que não sejam tráfico e assassínios com requintes de crueldade. E, para completar, está preso.
Se Sua Excelência está na cadeia, os brasileiros decentes que tiveram a coragem de investigar seus crimes ou dar aos investigadores as provas necessárias vivem sob o provável risco de terem virado alvo do exército de pistoleiros de aluguel sob seu comando. E todos os outros inocentes continuam sendo vitimados pelos maus resultados de um sistema institucional que escancara as portas para criminosos perigosos e fecha o máximo possível as portas pelas quais eles possam vir a dele ser expulsos, quando sua culpa é comprovada.
Ou se reforma drasticamente a legislação partidária e eleitoral e se acaba com essa confusão entre imunidade e impunidade ou, então, o diabinho ainda vai consumir muito café com veneno em minha saleta, rindo de nossa cara lavada.
- JOSÉ NÊUMANNE é jornalista e escritor em São Paulo

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