Cadê o texto e o contexto? - Joel Samways Neto
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de novembro de 1998
Joel Samways Neto 
Os EUA puseram na Internet a íntegra do relatório do promotor independente Kenneth Starr, sobre as relações entre o presidente Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky. Depois a Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados, no Brasil) divulgou as fitas com gravações de conversas entre Lewinsky e um amiga, sobre o caso amoroso com Clinton.
No Brasil, estamos há mais de uma semana às voltas com denúncias feitas pela imprensa, ora jornais, ora revistas, de circulação nacional, com base em supostas fitas com gravações feitas, clandestinamente, de conversas entre o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, o presidente do BNDES, André Lara Resende, e o sócio do Banco Opportunity, Pérsio Arida. Ninguém do grande público ouviu na íntegra dessas supostas fitas (por isso, ainda são supostas). Aliás, nem os protagonistas das conversas ouviram. O que eles alegam é que as gravações foram editadas, foram truncadas e desfiguradas do contexto original, e daí publicadas. Como ninguém ouviu as tais fitas, essa alegação pode ser tão verdadeira quanto a versão contrária. Mesmo assim, o conteúdo do que tem sido publicado foi suficiente para ouriçar catastrofistas e sensacionalistas. Passaram a acusar o ministro das Comunicações de ter violado a lei que regula os leilões das privatizações.
O ministro adiantou-se e requereu audiência junto ao Senado, para prestar esclarecimentos. Cerca de quatro horas de depoimento. E foi curiosíssimo assistir à performance de alguns dos senhores senadores - notadamente os da oposição - que questionaram Mendonça de Barros. Eles reliam trechos das frases publicadas na imprensa (as que teriam sido editadas!), porém dando uma interpretação carregada de dramaticidade. Lembrei-me do formidável ator Procópio Ferreira, pai da Bibi, numa entrevista, quando, para demonstrar seu enorme talento, ficava repetindo numa mesma frase, porém com ritmo, melodia, empostação, diferentes. Os inquisidores do ministro construíram um subtexto no qual os interlocutores das conversas gravadas seriam, no mínimo, cínicos facínoras, e que todo o processo de privatização da Telebrás não teria passado de um jogo de cartas marcadas.
Os senadores Suplicy, Requião e Simon foram destaque da bancada de oposição - com menção especial a esse último. Todos eles fizeram da tribuna uma berlinda onde puderam encenar o show dos detetives implacáveis. O ar de exibicionismo não ficou despercebido. Mendonça de Barros respondia, repetia e resposta, repetia, repetia... E os inquisidores não sossegavam. Simon chegou a sugerir que o ministro renunciasse ao cargo. Isso lhe valeu imensos espaços na mídia. O senador gaúcho comparou Mendonça de Barros com Rubens Ricúpero, ex-ministro da Fazenda, que teve sua conversa fiada transmitida sem querer, enquanto aguardava o momento de dar entrevista na TV Globo. As parabólicas captaram frases safadas do ex-ministro (do tipo eu não tenho escrúpulos). A imprensa descontextualizou, execrou o ex-ministro e ele acabou renunciando. Com base nesse episódio, Simon sacou o pedido para que o ministro das Comunicações renunciasse ao cargo e assim evitasse problemas para o governo federal. Ora, mas como é fácil derrubar o ministro!
O fundamental o ministro falou: era leilão de venda, não concorrência de compra; nenhum dos gestores do processo se locupletou com o que quer que fosse; a venda teve um resultado surpreendente, muito além do esperado; ele, ministro, foi vítima da escuta ilegal. No entanto, lá estava ele sendo acusado de improbidade administrativa e violação do princípio de impessoalidade, que rege os atos da Administração Pública!
Os inquisidores da oposição também reclamaram do linguajar do ministro. Realçaram o fato de ele ter falado palavrões e adjetivado pejorativamente algumas outras pessoas, inclusive integrantes do próprio governo. Como se isso fosse algo inusitado em conversas telefônicas das quais se presume sejam sigilosas.
O erro de Barros pode ter sido excesso de autoconfiança, auto-suficiência, vaidade, e não ter seguido a velha máxima latina: As pessoas devem, em público, agir como se estivessem sozinhas; e, sozinhas, como se estivessem em público. Todavia, nada que ferisse a ética ou que justificasse esse bafafá todo que a oposição quer montar. Pelo menos enquanto nós, cidadãos, continuarmos sem saber qual é, exatamente, o conteúdo integral, texto e contexto, das gravações.


