Uma campanha sem cor, sem brilho, sem dinheiro. Com poucas esperanças de vitória num eventual segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva teima numa candidatura que poderá reprisar, em outubro, um velho filme. A terceira derrota.
Em maio, Fernando Henrique despencou nas pesquisas, mas Lula não subiu. Na época, analistas davam como certo o segundo turno, mas políticos experientes garantiam que a situação poderia ser revertida. Exatamente porque Lula estaria no seu limite, ou seu melhor momento.
Os petistas não souberam aproveitar a queda do presidente da República nas pesquisas de opinião. A esquerda, de maneira geral, dormiu no ponto. Todos teriam que trabalhar muito para ultrapassar a enorme rejeição ao PT. E não houve criatividade suficiente para tanto.
Faltam exatamente dois meses menos um dia para as eleições. Surpresas podem ocorrer, é claro. Depois que recuperou os votos perdidos, Fernando Henrique voltou a falar algumas bobagens. Nada que se assemelhe aos vagabundos, mas frases que provocam irritação em quem gosta de andar na lei.
Disse o presidente, por exemplo, que são tantos os milhões a ser investidos contra o desemprego que nem precisa quantificar. É claro que precisa, o dinheiro é público. Mas pior do que a de Fernando Henrique foi a frase de Lula. Deu graças a Deus porque o desemprego subiu.
Estamos certos de que Lula não quis dizer o que disse. Pensou na chance de voltar a subir nas pesquisas na mesma proporção em que Fernando Henrique cairia com índices altos de desemprego. Mas as pesquisas que balizam o trabalho dos analistas, da imprensa e dos candidatos não confirmam isso.
Torcer pelo desemprego não renderá votos. Frases como essas tornam ainda mais melancólica a cruzada de Lula. E nem quebram a monotonia da campanha - que é generalizada. No caso do PT, talvez seja culpa do próprio candidato, que não queria disputar. Disse-o há um ano. Ou, quem sabe, culpa da direção do PT, que resistiu em procurar novidades no partido para substituir o desgastado Lula. Ou ainda porque o eleitor - que lamenta tantos desencontros - não queira assistir ao mesmo show tantas vezes.
O comitê de Lula no bairro de Perdizes, em São Paulo, parece escritório de um órgão governamental. Todo em verde, amarelo e azul. Sumiram as bandeiras vermelhas. Justo agora que a opinião pública estava acostumada com a cor e a estrela e já sabia que petistas não comem criancinhas.
Na campanha de 1989, o velho guerreiro Ulysses Guimarães amargou a pior derrota de sua vida política. Foi traído por seu partido e não somou 3% dos votos para presidente da República. Ficou atrás do excêntrico Enéas Carneiro. E assim terminou sua carreira.
Em 1998, o aguerrido líder que revolucionou a história do sindicato brasileiro poderá ser a bola da vez. A experiência mostra que Lula não terá mais do que 20 a 25% dos votos. E, se não ocorrerem fatos surpreendentes, a eleição deverá ser resolvida no primeiro turno.
A falta de entusiasmo de Lula tem sido mais forte do que o discurso.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

mockup