Cadáveres na calçada
Londrina foi varrida por um tornado de corrupção. E foi em função desse tipo de paradigma que o PT venceu amplamente as eleições na cidade. Sabe, porém, o prefeito eleito, Nedson Micheleti, que estará impedido de governar se não tirar todos os cadáveres do armário para uma exposição pública no Calçadão, a bienal da fraude, do afano organizado.
E não o fará por espírito de vindita e, sim, por imposição de uma realidade: não há como gerir um município do porte de Londrina com um déficit mensal de R$ 3 milhões e essa distorção tem a sua causa matriz na roubalheira. E o fará, também, pelo fundamento que o elegeu: o da moralidade, da resistência, a qualquer preço, à corrupção.
Nedson encontra o apoio logístico numa sociedade, hoje mobilizada por um imperativo ético, um Ministério Público atuante e juízes sensíveis. Especialmente, porém, esse núcleo de voluntários que resolveu dar um basta na corrupção sistemática e que representa os interesses difusos da sociedade em organismos que vão de clubes de serviço a entidades liberais como a OAB e de várias religiões até a histórica Maçonaria, em sinergia ecumênica, merece essa resposta indispensável.
Quando a CPI da negociação Copel-Sercomtel-Banco FonteCindan estava instalada e por manobra anti-regimental foi desconstituída, percebeu-se o quanto o chamado centro de poder (e ali estão todos no Centro Cívico) é mais resistente a operações radicais de devassa. Nessa hora dos salamalaques das autoridades chega-se, invetitavelmente, no ritual dos recuos, como acabou se dando de forma escandalosa no Legislativo.
Ontem foi confirmada a designação do ex-deputado Paulo Bernardo para a pasta de finanças de Londrina. Ele deixa a posição de secretário da Fazenda de Mato Grosso do Sul (fica mais dez dias apenas para fechar algumas negociações em Brasília) para encarar esse desafio. Qualificadíssimo, porque um decodificador de orçamentos, desde os tempos de perito na área como parlamentar e hoje testado numa unidade federativa que surpreende pela recuperação havida na questão do ajuste fiscal, Paulo Bernardo tem mais prestígio nos altos escalões de Brasília do que qualquer um dos nossos derradeiros secretários de Fazenda.
Não há como gerir Londrina sem tirar esqueletos do armário e expô-los na rua. Se não o fizer, o novo prefeito estará em médio prazo no pelourinho. Claro que o governo estadual é o menos interessado no aprofundamento das investigações da venda de ações do Sercomtel para a Copel. Todavia a raiz de tudo está aí. E o furúnculo tem que ser puncionado.
BIZARRICE
Ontem a revolta foi na praça de pedágio de Santa Teresinha de Itaipu e durou quase uma hora o processo de bloqueio da rodovia. Se não sair hoje no Tribunal Regional de Porto Alegre decisão favorável ao governo, e até pode acontecer, a situação desanda
AXIOMA Os ratos se reúnem para defender-se do gato predador. Aí um deles dá a idéia sensacional: colocar guizos no pescoço do felino para que fosse logo percebida a sua chegada. O problema era saber quem o faria. Agora há um caso parecido com a escolha do líder do governo na Assembléia Legislativa. Com o governo em queda poucos desejam o papel. É claro que a analogia não é muito adequada, já que os guizos se assentam melhor em outros personagens.
Como dizia a marchinha brasileira: Como vai você?// Vou navegando, vou temperando// Pra baixo todo santo ajuda// Pra cima é que a coisa muda!//
GLOSA Vejam que país é o Brasil. Nos contratos de pedágio, que são uniformes no País, as concessionárias é que pagam o DNER e o DER para que façam a fiscalização das obras. Dá pra confiar num sistema desses?
Bem parecido, aliás, com as instalações do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal cedidas pelos frigoríficos. Como dizia Bismark: há semelhanças profundas entre a forma de fazer leis e linguiças.
EPIGRAMA Que a relação estabelecida entre o pedágio e o usuário é semelhante à existente entre o suserano e o vassalo nem se pode discutir. E ainda chamam o nosso regime de republicano, quando reproduz instituições do feudalismo.
SPRAY Como julgar governantes se os processos no início parecem indefensáveis e esse quadro nem sempre se mantém? Por exemplo: só agora aparecem no Ministério Público Federal denúncias de crime do colarinho branco da diretoria do Banestado no governo Alvaro Dias por causa de um desconto concedido num chamado empréstimo-ponte a empreiteiras. - Com Lupion se deu o mesmo: denúncias de Rubens Requião, secretário de Justiça de Ney Braga, erram terríveis como a de que teria, através do seu procurador, mantido em conta corrente o dinheiro que deveria ser repassado aos hansenianos. E assim por diante. - O governo Lerner pode ter um julgamento precipitado mais por atuação do Ministério Público do que por denúncias oposicionistas. É o que se dará quando as dezenas de denúncias estiverem formalizadas a respeito do assalto ao Banestado, tanto na Leasing como na Corretora. Na área de Câmbio as apurações nem iniciaram. - Aprofundados os casos periféricos de Londrina e Maringá, sobra seriamente algo para o governo estadual, tanto nos encaminhamentos da venda das ações da Sercomtel para a Copel como nas ações do prefeito afastado de Maringá, Jairo Gianoto, e do seu secretário da Fazenda, Luis Antônio Paolicchi. - Turismo imperceptível: 26 navios aportaram em Paranaguá neste ano. Conexões por terra foram dominantes para a cidade e a Curitiba e por avião para Foz do Iguaçu. - Neste fim de semana, 900 turistas foram encaminhados a Paranaguá e Morretes por trem.
FOLCLORE O João Meassi, o Bagual, em seu site na Internet, parodia a entrevista da vice-governadora Emília Belinati. E quando a repórter pergunta qual a maior dor que sentiu em todo o processo, a resposta se refere à lipo-escultura a que se submeteu. Há quem esteja apostando, na realidade, em frases menos cordatas do que as da entrevista, na hora em que ela tomar posse pela 37ª vez no governo. É, pelo menos, a torcida de um setor político.
CROMO Jesus Menino feito um pequeno faraó. Assim está no presépio e assim na origem pagã do Natal (Natalis Invictis Solis) do culto mitraico ao sol.
AFORÍSTICO Diante do governo que aí está, lamenta-se a fraqueza da oposição.





