Cada país tem a república que merece
A família real portuguesa manteve-se no Brasil de 1808 até 1821. Esse deslocamento deveu-se basicamente à política expansionista de Napoleão Bonaparte no continente europeu. O território lusitano foi invadido em 1807, quando D. João VI era então o regente em lugar de sua mãe Dona Maria I, a Louca.
Protegida pela Marinha Inglesa, a corte portuguesa desembarca na Bahia em janeiro de 1808, transferindo-se dois meses depois para o Rio de Janeiro, cidade que sediou a corte até sua total extinção pela Proclamação da República em 1889.
Uma vez decidida a transferência da mais alta casta portuguesa, o problema passou imediatamente a ser onde hospedá-los na nova capital da colônia, uma vez que, anteriormente, haviam sido enviados um sem número de presidiários e aventureiros, que nada conheciam dos requintes europeus da época.
Começa aí a intensa distribuição de títulos de nobreza em troca dos favores necessários para a acomodação dos nobres europeus nas melhores residências da cidade para onde os mesmos se transferiam. Elias Antônio Lopes, negociante estabelecido na Quinta da Boa Vista, que se tornou residência oficial do regente foi logo nomeado Commendador da Ordem de Cristo, Fidalgo da Casa Real, tendo tornado-se então o primeiro nobre genuinamente brasileiro.
A não hereditariedade da nobreza brasileira lhe conferiu um caráter singular; nascia então uma corte de vida alternante e breve. No Brasil, não se é nobre para sempre, é em vida que se louvam os feitos, e, diferentemente da estabelecida nobreza européia, os titulares tropicais passam a ser circunstanciais, sendo comum, em primeiro lugar, a concessão de títulos a pessoas de idade avançada, quando o uso deles seria, portanto, breve.
É por isso que se pode dizer que no Brasil nunca existiu uma nobreza no seu sentido mais tradicional. Na verdade, vingou uma titularidade meritória e honorífica, que se afastava dos privilégios da hereditariedade ou dos vínculos de terra. Nobres por hereditariedade, somente a própria família real e seus descendentes. Sem nenhum privilégio, enquanto na Europa víamos o aburguesamento da nobreza, no Brasil, ocorria o oposto: foi a burguesia que se enobreceu.
Mas se a nobreza tupiniquim foi original, mais original e digno de menção foi seu fim, pois com a Proclamação da República, um de seus primeiros atos foi a extinção dos títulos honoríficos, pois tendo a nobreza como companheira do Rei, sua continuidade poderia simbolizar a sobrevivência da própria monarquia. Em fevereiro de 1891, Floriano Peixoto, o nosso Marechal de Ferro, enviou correspondência a Rio Branco informando-o sobre a medida, tendo endereçado o envelope ao Barão do Rio Branco, que de pronto haveria respondido, com um Ciente e traiçoeiramente assinado Barão do Rio Branco mostrando que tudo já começava de forma irreal e com jeitinhos que perduram até os dias de hoje.
Com a Proclamação da República, imediatamente expulsamos o deposto imperador, que se tratava de uma das pessoas mais cultas do País e que durante sua vida trouxe-nos inovações como a modernização das ferrovias, o telefone e uma rara coleção egípcia que se encontra em exposição no museu de história do Rio de Janeiro até os dias atuais e o substituímos por Rui Barbosa, que contribuiu com um empréstimo de divisas inglesas que trouxe ao País um dos maiores períodos de crise que já experimentamos.
Como podemos ver, a sucessão de erros brasileiros não data, infelizmente, de pouco tempo. Só espero que assim como tivemos a república que merecemos, não tenhamos, da mesma forma, merecimento dos atuais escândalos políticos que acompanhamos perplexos pelos jornais que circulam em nosso País.
- RICARDO PROCHET é professor universitário em Londrina e tetraneto do Conde de Mota Maia, médico de D. Pedro II





