Cacoete ideológico - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 17 de abril de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Lendo uma entrevista do sr. José Luís Fiori, veiculada pela Folha na segunda-feira passada, lembrei-me das palavras de Olavo Carvalho que, em seu excelente livro O Imbecil Coletivo assim se referiu à retórica: A veracidade ou a falsidade intrínsecas de um argumento são totalmente alheias à arte da retórica, que trata exclusivamente de como adaptar esse argumento, verdadeiro ou falso, às expectativas e preferências de uma auditório particular.
Noutro trecho da obra Carvalho menciona os pseudos, ou seja, os ostentadores de uma pseudocultura e vendedores de pseudociência, que, muitas vezes investidos de autoridade acadêmica, exibem do alto de suas cátedras uma ciência que não possuem a respeito de assuntos que desconhecem.
Essas interessantíssimas análises me vieram à mente ao ler a entrevista do senhor Fiori, intitulado cientista político, professor de Economia Industrial da UFRJ, e que já me agraciou com missivas altamente reprovativas na Folha por conta de opiniões por mim emitidas neste mesmo Espaço Aberto. E desde aquela ocasião me ficou a impressão de que à medida que ele escreve vai se empolgando consigo mesmo a tal ponto que, em determinado momento, é atropelado por seus pensamentos que se tornam incompreensíveis. Para ser franca, não sei se isto é feito propositadamente pelo cientista político Fiori, com fins de exercer a arte da retórica com prazer ou hábito, ou se perdido nos labirintos de sua paixão esquerdista insiste, como tantos outros, em negar a realidade ou confundi-la numa tentativa de superar a frustração e o vazio causado pelo fim do socialismo no mundo.
Além do mais, como um pseudo para ninguém botar defeito, Fiori usou termos impressionantes para o leitor comum como, por exemplo, fenomenologia, e apelou para a notável filósofa judia Hannah Arendt, que nunca teve nada a ver com o assunto que ele deixou entrever num raciocínio que parece funcionar no avesso da realidade: a crítica intolerante ao neoliberalismo.
De qualquer forma, o professor Fiori conseguiu rechear um palavreado desconexo com toques esotéricos, e conferiu ao seu discurso uma aparência de verdade baseada em algum termo científico e num autor consagrado, o que pode eventualmente ter embasbacado leitores que se impressionam facilmente com a arte da retórica, a única capaz de alvejar o nada e atingi-lo.
Não vale a pena reproduzir aqui as palavras do professor Fiori na sua entrevista. Basta resumi-las através da afirmação de que a utopia liberal chegou à sua fase totalitária, uma concepção, diga-se de passagem, que equivale ao samba do crioulo doido dos conceitos políticos, ou a uma inversão propositada para engambelar incautos.
Para começar, o liberalismo é um processo concreto que está em curso. Utopia, que quer dizer lugar nenhum, é a idealização de uma sociedade perfeita, e as utopias, desde as mais antigas até as mais recentes como a marxista, nunca se converteram em realidade.
Quanto à associação do liberalismo ao totalitarismo, esdrúxula e descabida, lembra, como recordou Olavo de Carvalho em recente artigo, George Orwell em 1984. Nesta notável obra de ficção em que o autor critica o stalinismo, aparece o termo duplipensar aplicado a um Ministério da Paz que organiza a guerra, ao Ministério da Verdade que se encarrega de forjar as mentiras históricas sobre personagens e fatos tal como fez Stálin, e por aí vai.
Deixando de lado o duplipensar do sr. Fiori, vamos tentar esclarecer didática e resumidamente alguns pontos:
1. O liberalismo, nascido no século XVIII na Inglaterra, sempre defendeu essencialmente o direito de liberdade e da propriedade, e sustentou a necessidade do Estado para proteger os homens por meio das leis. Note-se que o Estado liberal gerou a democracia e, portanto, o Estado de Direito. Quem postulou o fim do Estado foi Karl Marx, e não os liberais. Marx macaqueou o fim da história de Hegel.
2. Totalitarismo significa um sistema que se encarrega totalmente do cidadão, abolindo a fronteira entre o político e o social, e extirpando a liberdade individual. O totalitarismo reúne seis características: ideologia imposta, partido único, terror exercido pela polícia secreta, monopólio das comunicações, monopólio das armas e centralização da economia. Os totalitarismos deste século foram o comunismo e o nazismo. Sobre o assunto voltarei em outro artigo para melhor explicação.
3. O Estado brasileiro, que tem apenas leve tinturas liberais, está longe do Estado mínimo e tem aumentado sua participação na economia e na área social. Não temos um Estado Liberal.
Nos Estados Unidos, expressão máxima do liberalismo, existe pleno emprego, a produtividade cresce e a inflação é zero ou menos para felicidade geral da nação.
5. Diante da realidade o resto se resume em cacoete ideológico, expresso na arte de falar e não dizer.


